A metamorfose de Marinho

Marinho era criança. Estava com a mãe e a irmã dentro de casa, em um conjunto habitacional na cidade alagoana de Penedo, localizada às margens do Rio São Francisco. De repente, avisou:

– Um dia eu vou jogar no Maracanã.

A irmã, dois anos mais velha, reagiu com uma risada.

– Você não tem dinheiro nem pra comprar um sacolé – retrucou. – Como é que vai ter dinheiro pra pisar no Maracanã?

Alguns anos mais tarde, Marinho faria seu primeiro jogo como profissional – no Maracanã. Passados mais alguns anos, ele experimentaria um dos episódios mais marcantes da vida ao jogar ao lado de Neymar – no Maracanã. E mais alguns anos adiante, teria a chance de referendar o melhor momento da carreira e levar o Santos a uma final de Libertadores – marcada para o Maracanã.

Às 19h15 desta quarta-feira, Marinho enfrentará o Boca Juniors na Vila Belmiro. Aos 30 anos, viverá a partida mais importante de uma trajetória repleta de drama, curiosidades, reviravoltas – e marcada por uma metamorfose: o menino tímido que virou piada, a piada que se tornou meme, o meme que se converteu em referência técnica, liderança de vestiário e voz antirracista em um dos maiores clubes do Brasil.

A GÊNESE

No dia 6 de novembro de 2016, Marinho quase saiu no soco com um colega de time.

Naquele dia, o Vitória, em luta contra o rebaixamento, recebeu o Athletico-PR pela 34ª rodada do Brasileirão. Marinho jogava na equipe baiana. Ainda no primeiro tempo, ele abriu o placar. Mas o adversário virou em poucos minutos, e o segundo gol foi consequência de um erro do lateral-esquerdo Euller. No intervalo, na saída de campo, o zagueiro Victor Ramos cobrou o jogador pela falha. Marinho escutou e não gostou. Os dois bateram boca. Victor Ramos empurrou Marinho dentro do gramado, diante da torcida. E a confusão foi vestiário adentro.

– Quando cheguei no vestiário, tava uma gritaria do c…, os dois querendo se pegar, todo mundo segurando – lembra Argel Fuchs, técnico do Vitória na ocasião.

– Mandei soltar os dois. Falei: “Querem brigar? Então briguem”. Ficaram os dois se olhando, resmungando. Disse pra eles pegarem aquela raiva e levarem pra dentro do campo. No segundo tempo, o Marinho destruiu. Jogou pra c…

O Vitória venceu por 3 a 2. Quando Marinho fez o gol da virada (depois de dar assistência para o gol de empate), Euller, já substituído, começou a chorar na beira do gramado. Encerrada a partida, Marinho dedicou o resultado ao lateral.

O caso é simbólico porque seria impensável poucos anos antes. Quando chegou ao Inter, no começo de 2009, Marinho mal abria a boca. Na pré-temporada daquele ano, na cidade de Bento Gonçalves, ele passava pelo corredor do ônibus que transportava o elenco e levava, à guisa de batismo, tapas dos jogadores mais velhos – que também tinham liberdade para bater nele nos treinamentos sempre que ele tentasse alguma jogada de efeito.

– Quando vejo o Marinho hoje, é inacreditável. É outro cara. A gente zoava, dizia que ele era um bichinho do mato. Parece outra pessoa – comenta Edinho, volante que defendia o Inter quando o atacante chegou ao Beira-Rio.

Marinho foi buscado pelo Inter no Fluminense, seu primeiro clube profissional. Na equipe carioca, mesmo na base, era alvo de brincadeiras de colegas. Eles riam da ingenuidade do alagoano, caçoavam de seu jeito de falar.

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