Campo Grande, 25 de setembro de 2021

Filha denuncia descaso de hospital onde suspeita de morte da mãe é coronavírus

A Prevent Sênior enfrenta há alguns dias, investigações de órgãos públicos por irreguaridades de procedimentos e subnotificação de casos de COVID-19 nos hospitais Sancta Maggiore, de sua rede. O falecimento de uma idosa de 63 anos, moradorada da zona Leste de São Paulo, no início desta semana, pode ser um dos óbitos em decorrência do vírus, não comunicados às autoridades. E nem confirmado para a própria família, como contou a filha dela, em entrevista exclusiva para Marie Claire.

Em seu depoimento, Priscila, que preferiu ter a identidade preservada,  conta que o atestado de óbito traz como causa da morte, choque séptico, pneumonia e suspeita de COVID-19. A idosa não teve histórico recentes de viagens internacionais. Porém, quase uma semana após o falecimento, a família ainda não recebeu o resultado do exame que confirmaria ou não a contaminação da mulher. Ela afirma entre outras coisas, que o primeiro médico a atender a idosa garantiu que não era um caso de infecção por COVID-19.  “Insisti e o profissional negou enfaticamente que pudesse ser corona, ainda que eu tenha avisado que era diabética e hipertensa”, conta Priscila. Na terceira consulta porém, sua mãe foi encaminhada para a unidade do Paraíso, Zona Oeste da capital paulista, onde se concentraram todos os casos semelhantes.

Minha mãe era uma mulher ativa.  Aos 63 anos, mantinha uma rotina relativamente agitada. Fazia pilates uma vez por semana, era voluntária em um grande centro espírita da Zona Leste de SP onde ia com frequência e também em uma ONG, participando dos bazares beneficentes. Ainda ficava com minha filha de 4 anos, quando a mesma saía da escola, até eu retornar do trabalho.
No dia 4 de março, uma quarta-feira, ela começou a se sentir mal. Os sintomas eram dores no corpo e de garganta e uma tosse seca. Com o agravante de que, no meio da madrugada, ela foi ao banheiro e desmaiou. Resolvi então no dia seguinte, levá-la ao hospital Sancta Maggiore, da Prevent Senior, da Mooca. Lá, conversando com o médico, contei que no ano passado, ele havia passado por algo semelhante, mas não chegou a desmaiar. Cogitei que fosse relacionado ao neurológico dela, mas o profissional que nos atendeu disse que não era o caso e relacionou o ocorrido ao fato dela ser idosa.

Receitou um antibiótico e um corticóide para tratar a tosse e orientou que retornamos para nossa casa. Na sexta, notei que ela tinha piorado ao me ligar para dizer que não conseguiria buscar minha filha na escola.  Mas no sábado ela acordou melhor, imagino que por efeito das medicações. Fez um almoço, reuniu a família… Até que no domingo, voltou a ficar bem mal e, na segunda, já mal levantava da cama. A tosse piorou muito e ela estava em total estado de prostração.
Até então, ela achava que a fraqueza e a dor nas costas eram decorrentes do esforço para tossir, porque a tosse estava realmente horrorosa. Na terça-feira, 10 de março,  voltamos ao Pronto Socorro do mesmo hospital. Já era o sexto dia de antibiótico e ela não apresentava melhora. Comentei isso com o médico, achava que já tinha dado tempo da medicação ter algum efeito. Ele concordou e solicitou diversos exames de sangue (não sei ao certo quais) e uma radiografia, além de administrar soro (pois foi constarado que ela estava desidratada)  e um outro antibiótico, cujo nome não me lembro.

Neste dia, perguntei claramenre se ela não apresentava sintomas compatíveis com os de coronavírus. Ao que ele respondeu, enfaticamente, que não. Argumentei que ela não melhorava nunca e mais esse profissional disse que idosos demoravam para responder ao tratamento mesmo. Lembrando que minha mãe tinha 63 anos e, até então, era ativa.
Quando os exames sairam, o comentário do médico foi de que estavam “ok”. Confie nele, não questionei. Ele mudou o antibiótico para um mais indicado para infecções de vias aéreas e um xarope para tosse. E retornamos com ela para casa mais uma vez, ainda que eu tivesse insistido um pouco sobre se não seria melhor que ela ficasse internada para que de repente se alimentasse via sonda.

No dia seguinte, ela continuava piorando, com uma dificuldade cada vez maior de se alimentar. Conseguia beber água com muito custo. E, também naquela quinta-feira, voltamos para o hospital. Aliás, só neste dia soubemos que a unidade da Mooca do Sancta Maggiore, onde havíamos ido todas as outras vezes, tinha recebido um caso suspeito de COVID19. Percebemos, porque os funcionários usavam máscaras. Mas apenas eles. Nós acompanhantes, já preocupados com as notícias, pedimos máscaras também. Mas alegaram que elas eram apenas para funcionários e pacientes.
O médico que nos atendeu neste dia pediu uma tomografia do tórax, depois que eu disse que não sairia de lá com a minha mãe do jeito que estava: no segundo antibiótico, sem quaquer melhora. Ele concordou e a encaminhou para a unidade do Sancta Maggiore do Tatuapé, onde faria a tomo. Aí veio o resultado que mostrou que de fato havia comprometimento pulmonar. Fomos informados de que seriam feitos exames para H1N1 e COVID19 e que ela seria imediatamente transferida para a unidade do hospital no Paraíso onde, soubemos depois, estavam recebendo os casos suspeitos de corona.

Lá, não cheguei a visita-la. Ela foi internada na madrugada de quinta para sexta, 13 de março. Foi meu irmão quem acompanhou todos os dias. Chegando ao hospital, foi direto para uma área de isolamento, e logo depois para a UTI. Até este momento, ela não havia sido entubada e ainda era possível fazer visitas normalmente respeitando, claro, os horários de UTI. Na noite de sábado, dia 14 de março, dez dias depois da primeira vez que a levei ao hospital, meu irmão chegou para vê-la e ela já estava entubada e tinha piorado muito. Um médico tratou de nos tranquilizar, dizendo que a saturação estava baixa, mas que o procedimento a faria respirar melhor. Importante dizer que, neste mesmo sábado, meu irmão reparou que os procedimentos de visitantes haviam mudado. Era preciso entrar paramentado, com máscaras e luvas. Mas antes deste dia, não.  Acompanhantes circulavam sem máscaras, mexendo em celular e depois tocando na mão de supostos pacientes. Tudo sem qualquer tipo de cuidado ou orientação do hospital. Máscaras, de novo, apenas para funcionários e pacientes. A unidade continuava sem qualquer procedimento extremo de segurança. Ou seja, quem entrou lá com ou sem vírus, pode ter saído contaminado.

No domingo a noite, quando meu irmão chegou, o discurso e o tom dos médicos começou a mudar. A saturação da minha mãe seguia caindo, ele questionava sobre os exames que disseram que seriam feitos e só respondiam que não estavam prontos, mas que todo o protocolo de tratamento de COVID19 havia sido adotado. Outra coisa que chamou a atenção do do meu irmão neste mesmo dia é que outros pacientes que deram entrada como minha mãe na UTI, alertas e conscientes, no domingo também estavam entubados. Todos idosos.
Na segunda, dia 16 de março, pedi ao meu marido que fosse até lá. Ele voltou para casa desanimado e me preparando para o pior. A saturação estava mais baixa ainda, os rins começaram a falhar e já estavam tentando manter a pressão com doses de adrenalina. Onze horas da noite, minha mãe morreu.

Até o momento não tivemos acesso ao prontuário médico, que já solicitamos, mas que nos pediram 15 dias para entregar. Porém, no atestado de óbito a causa da morte consta: choque séptico com foco pulmonar/pneumonia/suspeita do COVID19. Depois que ela veio a óbito, meu irmão foi tratar com o médico. Estranhamos inclusive pois havia  enorme preocupação por parte deles ao perguntarem se iríamos cremar ou sepultar. E ficou claro o alívio quando dissemos que ela seria cremada.
Foi pelo agente funerário que soubemos que, por conta de COVID19, há em vigor uma nova regra que impõe que pessoas que vierem a óbito com essa suspeita precisam ser sepultadas em caixão lacrado. E assim fizemos.

Desde então, ligamos no hospital todos os dias para saber dos resultados. E nada. A última informação que tivemos além do protocolar foi de que o exame foi realizado no dia 13 de março e enviado ao hospital Albert Eistein. Mas do resultado, nada!
Por conta disso, informamos parentes e amigos, mas recomendamos que eles não comparecessem ao rápido velório. Não sabíamos e não sabemos até agora qual o risco a que eles estariam expostos.  Para não dizer que não houve orientação alguma do hospital, o médico que comunicou o óbito disse ao meu irmão que era bom ficarmos 21 dias em isolamento. Apenas isso. De resto, seguimos no escuro.

Minha mãe não tinha histórico de viagens. Mas, como disse, é voluntária em alguns lugares. E esteve num deles na terça-feira anterior ao dia que começou a apresentar sintomas. Onde não sabemos se pode ter sido contaminada, por exemplo.
Seguimos aflitos, sem nem ter tempo para o luto. Moro em cima da casa que era da minha mãe. Não sei ao certo o que devo fazer com relação ao local, se um de nós pode ter sido contaminado. As medidas que tomamos foram por conta própria. Criamos novas rotinas conforme orientação das autoridades. Mas estamos o tempo todo vivendo com o pânico de estar carregando o vírus ou não.

Marie Claire tentou entrar em contato com a assessoria de imprensa da Prevent Sênior, responsável pela rede de hospitais Sancta Maggiore, mas a instituição não quis comentar sobre o assunto.

O secretário de saúde da cidade de São Paulo, Edson Aparecido, disse em coletiva de imprensa realizada nesta sexta-feira (20) que está em curso uma investigação do ponto de vista de COVID-19 equipes do estado junto com equipes municipais fizeram uma investigação de ordem sanitária.

“As equipes estão reunidas neste momento para adequação final daquele que deve ser o laudo investigatório do que foi encontrado. O laudo final está prometido para até hoje, fim do dia”, comentou.

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