Campo Grande, 8 de dezembro de 2021

Em ação contra negacionistas, médicos russos convidam celebridades antivacina para visitar alas de tratamento de Covid

MOSCOU — Com um número ainda elevado de casos e internações por Covid-19, e diante da resistência de parte da população a se imunizar com as vacinas oferecidas pelo governo russo, um grupo de médicos de 11 hospitais do país fez uma sugestão a celebridades e políticos antivacina: os convidou a visitar as alas destinadas ao tratamento de pessoas infectadas pelo novo coronavírus.

“Estamos um pouco ocupados agora, vocês podem imaginar. No entanto, dada a quantidade de pessoas que leem e ouvem vocês, nós podemos achar algum tempo para guiá-los pelas zonas vermelhas e unidades de terapia intensiva de nossos hospitais”, diz uma carta aberta publicada nesta quarta-feira, segundo a agência Tass.

Segundo os autores, que incluem chefes de hospitais em Moscou, São Petersburgo, Krasnodar, Sochi e nas repúblicas de Khanty-Mansi e Komi, a visita poderá ajudar a mudar a opinião dos negacionistas sobre a importância das vacinas, fazendo com que “morram menos pessoas”.

A iniciativa foi elogiada pelo Kremlin, que também pediu que a abordagem sobre o tema seja feita de maneira “moderada”.

— Não seria bom transformar tudo isso em uma caça às bruxas. Aqui, é claro, é melhor adotarmos abordagem muito calma, sóbria e equilibrada é necessária — disse o secretário de Imprensa, Dmitry Peskov.

Entre os famosos negacionistas estão o veterano líder do Partido Comunista, Gennady Zyuganov, o vice-presidente da Câmara Baixa do Parlamento, a Duma, Pyotr Toltstoy, e a atriz Maria Shukshina — ela, por sinal, respondeu à carta prometendo escrever diretamente ao presidente, Vladimir Putin, exigindo o fim do que chamou de “orgia promovida pela mídia” sobre as vacinas e a necessidade de imunização. Repetindo argumentos comuns entre negacionistas de todo o mundo, disse que não se opõe à vacinação, mas sim ao uso de “imunizantes experimentais”.

A Sputnik V foi aprovada pelas autoridades sanitárias locais e foi autorizada para uso em mais de 70 países, mas ainda não recebeu o aval da Organização Mundial da Saúde.

De acordo com os números oficiais do Ministério da Saúde, apenas 37% dos russos completaram o ciclo vacinal com um dos quatro imunizantes disponíveis à população, todos produzidos localmente — esse é um fator que, para especialistas, pode estar ligado à baixa adesão, uma vez que muitos não confia na eficácias dessas vacinas, em especial da Sputnik V, e de sua versão de dose única, a Sputnik Light. Por enquanto, não há planos de importar vacinas produzidas em outros países.

A carta foi divulgada no momento em que a Rússia ainda enfrenta a mais grave onda de casos e mortes de Covid-19: a média de infecções diárias é de 35 mil, pouco abaixo da registrada no começo do mês, quando ela chegou a quase 40 mil. Já a média de mortes se mantém no patamar mais elevado desde o início da pandemia, com 1.217 nas últimas 24 horas.

Neste contexto, a vice-premier Tatyana Golikova alertou para o agravamento da situação nas próximas semanas, com a iminência das festas de fim de ano.

— Infelizmente eu tenho que lembrar que agora temos quase 35 mil casos por dia, e precisamos reduzir de forma significativa as infecções, atingindo os patamares desejados de imunização, para que superemos uma nova alta de casos da maneira mais segura possível — declarou Golikova, durante reunião com Putin, citada pela Tass. Para o governo, a meta de imunização ideal é de 80% da população adulta.

Em mais uma tentativa de incentivar a vacinação, o presidente Putin revelou ter recebido a dose de reforço de uma das vacinas disponíveis contra o coronavírus, e que participou de um teste clínico sobre uma vacina nasal, produzida pelo Instituto Gamaleya.

— Foi isso, não senti nada. Nada. Hoje, depois destes dois procedimentos, já pratiquei esportes pela manhã — afirmou Putin. A intenção dos fabricantes é, assim que finalizados os testes, exportar o novo formato da vacina. Também nesta quarta-feira, as autoridades sanitárias da Rússia autorizaram a aplicação da Sputnik V em adolescentes de 12 a 17 anos.

Apesar do reforço vacinal, Putin diz que não tornará a imunização obrigatória na Rússia.

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