Campo Grande, 20 de janeiro de 2022

As últimas cenas da semana que sintetizam o Brasil pré-2022

Algumas situações recentes traduzem, de formas distintas, o atual momento do Brasil nos últimos dias deste implacável 2021 (ou 2020 que não acabou). Começando pelas centenas de famílias que ocuparam supermercados, pelo Brasil, para pedir alimentos. A ação “Natal sem fome” organizada pelo MLB (Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas) mostra que atravessamos para 2022 com mais brasileiros famintos, de comida e visibilidade.

O ano novo se aproxima com autoridades aproveitando as cerimônias de encerramento do ano de trabalho, em Brasília, para se defender de ataques que partem do próprio presidente da República. “Não é tempo de violência e sentimentos menores, a luta ainda vai longa… O inimigo é um só e já ‘golpeou’ mais de 600 mil vezes”, disse o Antonio Barra Torres, da Anvisa. Ele defendeu a decisão recente de aprovação das doses infantis da vacina da Pfizer contra a Covid. Ele defendeu a vida. Bolsonaro tem se dedicado, desde quinta-feira (16), a levantar suspeitas sobre o embasamento técnico dessa decisão, ao ponto de ameaçar expor os nomes de servidores de carreira que, se fizeram algo, foi se dedicarem à saúde pública brasileira. Barra Torres foi acompanhado pela colega e diretora da Anvisa Meiruze Freitas, que também defendeu os servidores da agência e afirmou que a instituição não se pauta por medo ou ameaças (na última quinta, o presidente afirmou que divulgaria a relação de todos os envolvidos na aprovação do imunizante para essa faixa etária). Atravessamos para 2022 precisando defender o básico, mais uma vez.

Já o ministro Luiz Fux, na sessão de encerramento do ano judiciário, disse: “em mais um ano desafiador, a democracia venceu. Essa corte seguirá sempre atenta às necessidades do Brasil, pronta para agir e reagir, quando preciso for em 2022”. Atravessamos para 2022 com a democracia continuadamente afrontada pelos eleitos graças a ela.

No mesmo dia, o Congresso Nacional retoma um fundo eleitoral obsceno no valor de R$ 5,7 bilhões. Dinheiro público – e cada vez mais escasso – para bancar as campanhas eleitorais do ano que vem. Importante dizer que a decisão foi tomada com apoio do partido do presidente da República e diante da inércia do Palácio do Planalto durante a votação. Esse valor será o maior desde que esse fundo de financiamento foi criado, em 2017. Atravessamos para 2022 com parlamentares mais interessados nos próprios futuros (políticos). Reflitam muito sobre o seu voto!

E falando em reflexão, vamos valorizar a saúde que se manteve perto, e exaltar os brasileiros que trabalham para que a gente não se esqueça dos que se foram. A cura do Brasil passa por isso. Após quase dois anos se dedicando a contar as histórias de vida de cada uma das vítimas da Pandemia, o projeto Inumeráveis lançou, esta semana, um projeto de memorial em espaço físico, num parque da cidade de São Paulo, e agora conta com a adesão da sociedade e do poder público para viabilizar esse espaço. E sabe qual foi a maior lição dos envolvidos ao longo desse trabalho (sempre voluntário)? Quando as pessoas vão falar daqueles que partiram, o que fica é sempre o mais simples, as lembranças das trocas mais genuínas e cotidianas. Curtam os seus, agora, agora e agora. Até 2022.

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