Pelo quinto ano seguido a Secretaria de Articulação Política da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) produziu um dossiê sobre a violência contra essa população no país. Quando se olha para os dados em Mato Grosso do Sul, o estado fica em 14º no ranking dos estados que mais mataram transexuais no Brasil. Foram 3 vítimas.
O dossiê aponta que, em 2021, 140 pessoas trans foram assassinadas no país, sendo 135 travestis e mulheres transexuais, e 5 homens trans e pessoas transmasculinas.
De acordo com a Associação Internacional De Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexuais (ILGA), o Brasil é o 2º país mais avançado em conquistas de direitos pró-LGBTQIA+. Apesar disso, o dossiê apontou que pelo 13º ano, o Brasil continuou sendo o país que mais mata essa população.
Em 2021, Mato Grosso do Sul subiu 7 posições no ranking. Em 2020, o estado estava em 21º, e havia registrado duas mortes de pessoas trans. Veja a foto abaixo.
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Ranking de assassinatos de pessoas trans por estado desde 2017 — Foto: Reprodução
Análise dos dados
De modo geral, a maioria das vítimas mortas estão no Sudeste: 35% delas. O percentual é seguido pelo Nordeste (34%); Sul (8%); Centro-Oeste (11%), Norte (10,5%) e Sul (9,5%). Nacionalmente, a idade média de trans assassinadas é de 29,3 anos.
No relatório, a associação destaca que “é urgente traçar estratégias de fortalecimento das instituições de luta pelos direitos das pessoas LGBTQIA+, a proteção de defensores de direitos humanos, e pela garantia da sobrevivência da comunidade”.
Veja outros dados do dossiê:
- A maioria das trans vítimas de assassinato em 2021 tinha entre 18 e 29 anos: 53% delas, o que indica a morte prematura de jovens;
- Em 28% dos registros, as idades variavam entre 30 e 39 anos;
- Trans com idades entre 40 e 49 anos representam 10% das mortas;
- Já no caso das vítimas entre 50 e 59 anos o percentual é de 3%;
- A Antra contabilizou um caso de pessoa trans assinada em 2021 com mais de 60 anos;
- 81% são pessoas pretas ou pardas, 18% brancas e 1% indígenas.
Stéfany Ferreira de Oliveira
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Antes de viajar, suspeito de matar mulher trans deixa mensagem para família: ‘Adeus, luto’ — Foto: Redes sociais
Stéfany Ferreira de Oliveira, foi morta à facadas em Cassilândia, a 437 km de Campo Grande. O corpo da vítima foi encontrado no dia 15 de outubro. Segundo a polícia, o principal suspeito do crime era o namorado, de 31 anos. Ele mandou uma mensagem à mãe da vítima antes de fugir.
Conforme a ocorrência, o corpo foi encontrado pelo pai da vítima, de 60 anos. Na época do crime, a mãe de Stéfany disse que a filha não dava noticias há dois dias e teria recebido uma mensagem do namorado se despedindo, dizendo “adeus, luto” e informando que as chaves da casa e a motocicleta estavam na rodoviária.
Na casa de Stéfany havia muito sangue e marcas de pneu no chão. O corpo da vítima estava no quarto e apresentava várias lesões. A faca utilizada no crime foi encontrada embaixo da cama.
Flavio Junior Duarte Arruda, de 31 anos, suspeito de matar Stéfany Ferreira de Oliveira se apresentou à polícia, na Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), em Cuiabá, no final de outubro do ano passado, e confessou o crime.
Após depoimento, segundo a Polícia Civil, o homem não foi mantido preso porque não havia nenhum mandado de prisão contra ele, além de ter passado o período de flagrante.
Agressões que perduram
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Camila segue se recuperando das agressões — Foto: Camila Ferreira/Arquivo Pessoal
A história de Camila Ferreira, de 54 anos, marcou a população de Campo Grande em 2021. A mulher transexual foi sequestrada, estuprada e abandonada em via pública da Capital, no final do mês de junho do ano passado. Camila segue firme e resistente no país que mata mais pessoas trans. Se recuperando, a vítima de várias agressões segue firme.
Após alta médica, Camila conversou com o g1MS. Durante o período que esteve no hospital, Camila passou por alguns procedimentos cirúrgicos em decorrência das agressões que sofreu. No início do tratamento chegou a apresentar um quadro de infecção.
Em decorrência da violência, ela ficou internada por 20 dias no Hospital Universitário, na capital, para tratar de mutilações, feridas e infecções.
Camila detalha que o trajeto da vida dela foi marcado por preconceito. A carnavalesca disse que o crime cometido contra ela deixou marcas no corpo e na memória dela. Durante os dias no hospital, Camila foi submetida a duas cirurgias, uma de emergência e categorizada como delicada.
“Foram várias cirurgias. Tive que ficar de jejum o dia inteiro para conseguir fazer uma ressonância e constataram que por dentro, eu estava muito machucada. Isso foi em decorrência da contaminação”, descreveu.
Por José Câmara, g1 MS






