Campo Grande, 4 de março de 2024

O futebol brasileiro precisa parar. A cultura do abuso nos levou ao descontrole e ao flerte com a tragédia

Há momentos de crise em que é preciso ter um cuidado: não fazer pesar sobre os ombros das vítimas a responsabilidade de agir pela solução. No entanto, o descontrole e o flerte cotidiano com a tragédia que marcam o futebol brasileiro atual se arrastam há tanto tempo que desapareceram as razões para acreditar que autoridades públicas, judiciário ou dirigentes esportivos irão se mobilizar.

Restam os jogadores, vítimas cotidianas do ambiente tóxico e violento em que se transformou futebol, como alternativa final. Se agirem como classe, em solidariedade aos companheiros já abusados e em reconhecimento ao estado de permanente ameaça que vivem, os atletas têm poder de iniciar um movimento por mudanças estruturais. Antes que nos reste apenas lamentar uma vítima fatal. Falta pouco. Por ora, houve mais sorte do que juízo.

Que ninguém se engane: o futebol brasileiro precisa parar. Os jogos desta quinta-feira não deveriam ocorrer, tampouco os do fim de semana. Os incidentes da Vila Belmiro, desde a véspera, precisam ser tratados como um ponto de ruptura. Não são os primeiros, não serão os últimos. A cena dos jogadores do Corinthians confinados num ônibus, obrigados a voltar a São Paulo por falta de garantias para que desembarcassem e entrassem no hotel que os hospedaria, é uma indignidade. Assim como é indigno ver atletas do Santos acuados, obrigados a correr para o vestiário tentando evitar que uma bomba os atingisse.

Confusão encerrou Santos x Corinthians na Vila Belmiro — Foto: Marcos Ribolli

Confusão encerrou Santos x Corinthians na Vila Belmiro — Foto: Marcos Ribolli

Escolhemos acreditar que estádios de futebol são territórios de leis próprias, porque a paixão justificava qualquer comportamento. Do pai que autoriza a criança a falar palavrão e xingar o juiz aos extremos do racismo, da misoginia, da homofobia. Instalada a cultura de permissividade, o futebol perdeu qualquer rédea da situação. Porque o jogo não é uma ilha numa sociedade cada vez mais agressiva, intolerante. Mas revelar-se como um mero reflexo da realidade vivida fora dos limites do estádio não isenta o futebol de tentar entender por que ele se permitiu ser depositário de todas as patologias do mundo moderno; por que o ambiente do jogo se tornou tão convidativo; e por que os profissionais se tornaram alvos nos quais se descontam todas as frustrações cotidianas.

Por conveniência, em nome da tal paixão e como um alívio das tensões, terminamos nos convencendo de que o atleta de futebol é o único trabalhador obrigado a considerar normal ter o xingamento, a ofensa, como parte do cotidiano de sua atividade: o abuso direcionado a ele ou à família dele. Normalizamos crimes de toda ordem. No intervalo da fatídica noite de quarta-feira na Vila Belmiro, bem antes dos rojões serem lançados no campo, os jogadores do Santos iam para o vestiário enquanto dezenas de cidadãos ensandecidos, o ódio traduzido em suas expressões, aproximavam-se do alambrado para gritar ofensas num tom raivoso, num ataque de fúria.

Torcida do Santos atira fogos no gramado da Vila Belmiro — Foto: Reprodução / Premiere

Torcida do Santos atira fogos no gramado da Vila Belmiro — Foto: Reprodução / Premiere

A relação com o futebol se edificou sobre estes pilares: ou o profissional entrega resultado, ou parte da plateia se vê no direito do abuso, seja verbal ou físico. E parte da falta de ação dos atletas como classe, até hoje, tem como pano de fundo a cultura do medo.

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