Campo Grande, 22 de abril de 2024

Fernanda Torres fala da série ‘Fim’, de envelhecimento e da mãe, Fernandona: ‘Pequei mais que ela, não sei se duro tanto’

Por 

Maria Fortuna 

— Rio de Janeiro

 

Fernanda Torres surge na sala de sua casa em versão “autora”. Isso inclui um elegante mocassim de couro e um figurino bem mais sóbrio do que o vermelho clássico que está acostumada a vestir quando é a atriz que está no foco de uma estreia. Desta vez, é a Fernanda escritora e dramaturga que está à frente de um trabalho. Neste caso, a série “Fim”, adaptação do romance homônimo com que debutou na literatura, em 2013, e cujos primeiros capítulos foram ao ar nessa quarta-feira (25), no Globoplay, dois dias após a exibição para a própria equipe, segunda-feira (23), data desta entrevista.

Equipe esta que inclui elenco estelar: Fábio Assunção, Débora Falabella, Marjorie Estiano, Emílio Dantas, Bruno Mazzeo, Thelmo FernandesDavid Júnior, Heloísa Jorge, Laila Garin, entre outros, além da própria Fernanda, que faz uma ponta. Os atores vivem os personagens ao longo de 40 anos (a caracterização é impressionante) e, ao todo, foram usadas 290 locações.

A atriz está feliz com o resultado da superprodução. Mas com frio na barriga. Não sabe como leitores vão receber a adaptação do livro e “reza” para que o espectador mergulhe nos dez capítulos, liberados de dois em dois semanalmente, para entender a curva dramática que ela propõe, em que passado e presente caminham juntos.

— “Fim” conta a história de cinco casais e um trisal que fazem parte da última geração, nos anos 1960, criada para casar e ser feliz, mas que foi atropelada pela revolução de costumes dos anos 1970. Foram se separando, tendo filhos, as mulheres começaram a trabalhar. Tem namoro, casamento, filhos, brigas, divórcio, velhice, decadência e morte. É uma reflexão sobre a vida, um folhetim rodrigueano cheio de traições, amores, paixões e até bacanais — diverte-se ela.

Na conversa abaixo, a atriz de 58 anos afirma que ter conhecido Nelson Rodrigues impactou seu olhar sobre a vida, detalha seu próprio processo de envelhecimento e se define como “uma mulher de época”. Também conta como está sendo voltar ao set no novo filme de Walter Salles (“Ainda estou aqui”), com quem rodou “Terra estrangeira” (1995). E explica ainda por que encenar de novo “A casa dos budas ditosos” (peça baseada no livro homônimo de João Ubaldo Ribeiro) é uma evocação à “libido perdida”.

Fernanda Torres, aos 58: ‘Não tenho o mesmo gás,  mas há uma calma e maturidade que não troco por nada' — Foto: Leo Aversa
Fernanda Torres, aos 58: ‘Não tenho o mesmo gás, mas há uma calma e maturidade que não troco por nada’ — Foto: Leo Aversa

A adaptação de “Fim” é fiel ao livro, sem ser. Uma jogada de mestre foi transformar os pensamentos dos personagens em diálogos.

O negócio foi embaralhar e dar (as cartas) de novo. Sempre que adapto ou escrevo não gosto de ir direto para roteiro, acho mecânico. Romance tem gordura para os personagens não falarem a ação. Diálogos têm que se contrapor à ação. Quando se tem um romance de base, há o pensamento interno dos personagens.

O que dá profundidade a eles.

E falta de comunicação também. Cada um está preso dentro de sua própria complexidade. Tem uma frase do Pedro Cardoso que eu adoro. Quando duas pessoas estão conversando, não é que uma está ouvindo a outra para rebater. Na verdade, está esperando a outra parar de falar para dizer o que está pensando.

Novidade da série em relação ao livro é o protagonismo feminino, que não existe na obra literária. Por quê?

Outros tempos, né? (risos). É que quando eu escrevi o livro, eu ia escrever uma mulher e parecia muito que era eu. E eu era conhecida… Quando comecei a falar como se eu fosse um homem, foi maravilhoso, uma libertação. Então, no livro elas são totalmente coadjuvantes, escritas em terceira voz. Na adaptação, elas tinham que ter voz. Digo que são cinco casais… Na verdade, quatro e um trisal, porque tem as personagens Brites (Marina Provenzzano) e Suzana (Tainá Medina). Claro que ainda tem aquela coisa da matilha de homens do livro, mas tem a matilha das mulheres também.

O clássico pacto masculino hétero, porém com a sororidade feminina para complementar. A amizade tem contornos bonitos na série.

Tem uma hora em que uma mulher fala para a outra uma frase que diz muito sobre aquela geração: “A gente casa achando que a vida está resolvida e, quando vê, está dormindo com um estranho”. Esse sentimento… “Fim”, às vezes, me lembra um livro que é extraordinário, imagina (dá a entender que não ousa comparar as duas obras)… O “Na praia”, do Ian McEwan, que retrata o último casal virgem. Eles perdem a revolução de costumes que teria resolvido a vida deles. Sinto que os casais do “Fim” são os últimos dessa geração em que o casamento significava a resolução. Só que é depois do fim é que começa a vida…

Um tempo em que a monogamia só servia para as mulheres… Você disse que estão ali na tela “os últimos machos do planeta Terra antes de o mundo dar conta deles”. A série mostra bem as transformações no tempo, a começar com eles vestidos de mulher no carnaval…

Exatamente. O livro é o epitáfio do macho. A série, o epitáfio dessa geração que eram os adultos da minha infância, uma geração que foi atropelada pela revolução de costumes. A mãe de uma amiga minha diz assim: “Separei porque todo mundo era separado, era moda separar, pegava mal ser casada. Depois, pensei: ‘Nem precisava ter separado'” (risos).

Os personagens Suzana e Brites apontam para o mundo em que estamos hoje. A cena em que Ribeiro arrasta Brites para ver a Copa do Mundo na casa deles… Ela, uma hippie do Píer, olha aquilo como um mundo estranho e diz, tipo: “Passei a tarde vendo as mulheres servindo aqueles homens iguais a uns paxás”. Ela não aguenta e vai, sei lá, fumar um (risos).

Amores correspondidos ou não, casamento sem tesão, separação repentina dos amigos, doenças. Não tem como as pessoas não se identificaram com pelo menos um aspecto daquelas histórias, né?

Alguém tem algo daqueles casais. Adoro a personagem da Débora (Falabella), a mulher prêmio, que acha que casou com um homem aquém dela. Conheço vários casos. Ou do casal ideal, o Fábio (Assunção) e a Marjorie (Estiano) que, no fim, têm a maior tragédia da história. Ou o Ribeiro (Emílio Dantas), que gostava de meninas mas, com o tempo, isso vai virando pedofilia. As pessoas são virando cada vez mais o que são. O Silvio (Bruno Mazzeo) é o louco que vai ficando muito louco.

É muito a vida como ela é, mas tem um olhar bem triste em relação aos relacionamentos. Praticamente, nada ali dá certo…

E a mulher que descobre que ama o outro… ele morreu (risos). Ao mesmo tempo, as pessoas têm um desejo de vida imenso. A vida é trágica porque a gente morre, então, isso é a base do “Fim”. Mas há um desejo, uma ânsia, uma urgência de vida dos personagens. De realização, de felicidade…

Acho curioso o pessimismo sobre relações amorosas vir de você, casada há anos (com o diretor Andrucha Waddington)…

Mas eu sou uma pessimista profissional. Sou pessimista por superstição. Acho que achar que vai dar certo é um passo para dar errado. Minha mãe tem isso arraigado nela e passou para mim. O Andrucha vive dizendo: “Nanda, você é peru de Natal: morre na véspera, sempre achando que vai ser um horror”.

Se preparar… Hamlet: “Tudo na vida é estar preparado”. Eu vivo assim, achando que dará errado. Aí, se der certo, é lucro…

A caracterização é um ponto alto da série. Os mesmos atores vivem os personagens por mais de 40 anos.

A Lu Moraes (maquiadora) quase enfartou. Porque eram 290 locações, mas de 40 anos de diferença dos personagens, tudo feito com duas frentes de filmagem. Dani (Thomas, cineasta) e o Andrucha (diretores de “Fim”) se juntavam em algumas cenas importantes. No final, levava quatro horas para fazer a maquiagem para ficar crível eles com 80 anos. E o medo de não ser crível?

Você ficou a cara da sua mãe com a caracterização. Dá um orgulhinho?

Quando envelhece, fico a cara dela, né? Olha, hoje é legal. Porque… Eu tinha o mesmo nome da minha mãe, fui fazer a mesma profissão, era um contrato impossível. Hoje, me sinto eu. Tenho uma forma de representar, escrevo, é meio milagroso. Mas devo muito a eles. “Fim” é totalmente rodrigueano, e minha mãe me levou para conhecer Nelson Rodrigues. Cresci com ele na minha casa. Essa compreensão trágica do Nelson sobre a vida… “Fim” tem esse DNA. E isso eu ganhei por osmose, é um privilégio realmente imenso.

Fora a inspiração que é a sua mãe. A série é sobre velhice e ela, aos 94 anos, segue firme, lúcida, trabalhando.

Ativa. Ela trabalha mais do que eu. Isso é inspirador mesmo. Mas eu pequei mais que ela.

Em que sentido? E o que isso quer dizer?

Em todos os sentidos. Quer dizer que não sei se chego tão longe… (risos).

Em 2021, você escreveu uma crônica sobre, como você definiu, sua “transição para a velhice”. Contou ter ganhado certa irritação. Anda sentindo, com perdão da piada, o fim cada ver mais próximo?

Não é nem o fim… Mas é algo que senti, por exemplo, vendo os show dos Titãs. Tive uma emoção enorme, porque era como se estivesse me reencontrando comigo, com os valores que reconhecia como meus. Aquela coisa meio niilista, pós-punk da geração 1980, com o Brasil no buraco econômico, mas com uma liberdade…

Ninguém era politizado no stricto sensu, mas era todo mundo revoltado. Era um movimento estudantil sem política, um movimento comportamental, poético. Vi aquilo e falei: “Caramba, é isso mesmo, isso aí sou eu”. A gente foi com meu enteado, Pedro… Ele conhecia da infância, a gente cantou “Bichos escrotos” para ele, mas estava descobrindo aquilo no show.

Mas hoje, olhando… são brancos, cis, privilegiados…

Uma compreensão que não havia na época…

Acho que aquela fúria hoje, aquela vida, essa revolta e a hora de dizer algo, está no movimento negro. Reconheço isso no “Mano a Mano”, no Maxwell (Alexandre, artista) pintando. É engraçado que o Mano Brown até falou isso… Que os anos 1980 foram horríveis, era quando estavam invadindo a periferia paulista com a polícia, ninguém tinha voz.

Então, aquela vida que reconheci nos Titãs, hoje, acho que não está em pessoas como eu. E reconhecer isso é um processo. Você vai envelhecendo e tem que aceitar que a maneira como te veem não é como você se via, que o mundo e os valores que você achava… Havia um sentido de liberdade muito grande, mas hoje é diferente.

O mundo está bem mais politizado…

Muito mais. E na cartilha, nas organizações formadas. E mais policiado também. Naquela época, não havia ainda essa dúvida de que a liberdade… A direita ainda não tinha se apropriado da liberdade de expressão. Ela pertencia a gente como eu. Essa mudança, eu estranho muito. Estranhei o mundo belicoso, quando ele virou. Quando comecei a escrever, não tinha medo. Teve uma hora em que comecei a ter medo de escrever, a volta dessa ultra-direita me assustou. Mas, é isso, comecei a estranhar o mundo, e isso eu acho que tem a ver com velhice.

Há de se reconhecer o momento mais de ouvir do que de falar… Além do mais, como você já disse, você é uma mulher de época.

Sou uma mulher de época. E o primeiro movimento que vem é a irritação. Você não está entendendo o mundo e o mundo não está te entendendo. Você já não é exatemente o mundo lá fora.

Talvez seja um desconforto inerente à idade…

Depois da irritação, você começa a ouvir, a prestar atenção para não se danar. Tem coisas que você continua a não concordar, mas fica quieto. Outras coisas, você passa a fazer um esforço para ver. Esse descompasso entre o mundo lá fora e o mundo interior, acho que tem a ver com o envelhecer.

Que outras coisas mais estranha no mundo contemporâneo?

A superexposição no Instagram é uma coisa que estranho muito. Primeiro, posta que está amando, depois, tem que avisar que separou. Sou do tempo da Embrafilme e dos paparazzi. Mas, olha, emplaquei como meme com Vani, “Tapas & Beijos”… Fui no Porchat e emplaquei até figurinha!

Já sentiu o etarismo na pele?

Não. Estou louca para ficar idosa, porque vou ter um um lugar, vou fazer parte de uma minoria. Daqui a dois anos, vou poder falar em nome do idoso, acho que é um bom lugar para se estar hoje. Outro dia, alguém falou: “Esse macho não sei o que”. Eu disse: “Alto lá, ele é idoso, não pode atacar” (risos).

Você contou numa crônica que foi assistir à exibição da cópia restaurada de “Terra estrangeira”. Que procurou se lembrar de quem era durante as filmagens, mas não conseguiu. Como está sendo voltar ao set com Walter Salles mais de 25 anos depois?

Super emocionante. E não é mais um filme adolescente como o “Terra…”, é fazendo um filme de adulto. E não é só o Walter… A Dani (Daniela Thomas) está também. Comecei a escrever por causa dela no “Terra estrangeira”. Walter a chamou porque queria trazer o processo de teatro para dentro do filme. Ela pôs a gente para improvisar. “Mas e aí, o que a personagem falaria agora?”, provocava.

Íamos improvisando e ela ia colocando aquilo no roteiro. Eu olhei e falei: “Ué, pode ser assim?”. Até hoje, meu processo de escrita é muito parecido, principalmente, quando escrevo personagem, ao de improvisação, de estar dentro daquele papel, imaginando o que ele falaria, em que situação estaria. Isso foi a Daniela quem me deu.

Reencontrá-los, com vocês todos mais maduros, traz outras perspectiva de vida mesmo, né?

Muito lindo isso na vida também: as coisas voltam. Outro dia, fui ver “Inocência” (filme de 1983, protagonizado por ela) ao lado do Walter Lima Jr. (diretor do longa). Tive uma emoção… Nunca tinha visto o filme na distância, tanto de tempo como projetado em telão.

Tive a consciência de como tive sorte na vida por o Walter ter me escolhido. Foi determinante para mim. Depois, o (Arnaldo) Jabor (diretor) me chamou (juntos, eles rodaram “Eu sei que vou te amar”, em 1986), porque uma coisa puxa a outra. Ali, também tentei me lembrar de que eu era e já não me lembrava.

Vi uma foto de você fazendo crochê nos bastidores das filmagens de “Ainda estou aqui”…

Maria, meu amor, está uma beleza meu projeto! É um vestido. Sem receita nem nada. Minha avó, mãe do meu pai, me ensinou. Ela era um fenômeno de crocheteira, uma artista, fazia até com linha de costura. De vez em quando, eu pego. Já fiz umas almofadas. Agora comprei um daqueles manequins para pendurar (mostra a foto do vestido em construção, rosa champanhe, armazenada no celular “para os amigos” e não no “de trabalho” ). Crochê é bom para esperar. Avião, então…

Durante uma conversa nossa, na pandemia, quando a cultura brasileira sofria uma dura perseguição do governo Bolsonaro, você me disse: “A arte renasce, me preocupa é a Amazônia queimando”. A Amazônia continua queimando e ainda enfrenta uma seca pavorosa. Da arte, se tem boas notícias, na sua opinião?

A arte está aí, ó. O teatro é impressionante. Quem diria… Parecia findo, que nada viria e, de repente, foi virando o lugar onde… Acho que as pessoas investiram em home theater e nos streamings. Então, a experiência do cinema está em casa. O teatro, não. A necessidade da presença voltou. Com “Budas…”, fiquei chocada. Primeiro, fiquei com medo, era um teatro grande. Abri quatro sessões e esgotou na hora. Abri mais quatro e pimba. Só tive que suspender as extras por causa do filme do Walter, que vou ter que rodar em São Paulo.

O que te motivou a retomar esse espetáculo?

É meu pé de coelho. Toda vez que volto a ele, é como estar com Domingos (Oliveira, diretor) e (João) Ubaldo. É bom estar em cena com algo que domino. Durante o período terrível que passamos, era um texto que não fazia sentido encenar. Porque a gente perdeu a libido. Veio a pandemia, com o horror todo daquele governo. A classe artística sendo atacada. Não só por dinheiro, mas também moralmente, como se fôssemos sujos, sabe? Aquele texto não cabia. Agora, é incrivel como voltou a fazer sentido.

Como uma ode à libido…

Isso, uma ode à libido. Voltamos a ter libido. Ainda não cheguei na idade da personagem…

Mas a Fernanda que agora está no palco é outra…

Ela está mudando há anos. Quando comecei a fazer, eu dizia, com a boca cheia porque estava naquele período: “A melhor idade de uma mulher é entre os 35 de 40 e poucos”. Quando fiz 48, pensei: “Acho que passei dos 40 e pouco”. Agora, é 58! Falo como no passado mesmo.

Quais são os bônus da Fernanda de 58?

Olha, envelhecer é ótimo. Tem uma ansiedade no jovem que é a de saber se vai vingar na vida. A gente é ansioso, mas ao mesmo tempo, alegre. Eu não tenho o mesmo gás que eu tinha, mas há uma calma e uma maturidade que não troco por nada. Hoje, não desejo o lugar de ninguém, tenho muito menos ansiedade.

A gente começa a fazer coisas grandes. Escreve um livro, adapta para uma série. Debutei como autora aos 48 e fiquei meio adolescente com as descobertas. Entre o livro e a série foram 10 anos. E aí tem a minha parceria com o Andrucha, que não é de casal, mas via Conspiração, braço incrível que amigos desenvolveram ao longo do tempo, capaz de dar conta de um bicho do tamanho do “Fim” sem perder o sentido de grupo.

Que é a sua origem, né?

A origem de todos nós, da Dani… A equipe que a gente trabalhou veio dos cinco anos de “Sob pressão” (programa dirigido por Andrucha). Era um grupo. O Bruno Mazzeo é meu irmão. É filho do Chico Anysio, e eu da mamãe. O Chico estreou na rádio com a mamãe. Tipo, não é você sozinha, é a sua geração. Isso está nas entrelinhas do “Fim”. A Marjorie é a primeira atriz do Andrucha em “Sob pressão”, fiz “Tapas” com o Fábio Assunção, que hoje é esse ator maduro maravilhoso.

A forma como veio o David Junior e suas contribuições… O casal de negros (David e Heloisa Jorge, de “Fim”)… Era super delicado, eu, branca, escrevendo. Tivemos um consultor maravilhoso, porque eles têm razão: a gente é cego para algumas coisas. Eles me fizeram aprofundar mais os dois.

Então, é essa coisa de não só eu, mas a sua geração amadurecer. Esse lado de envelhecer é legal. Você não envelhece sozinho… E também é uma ponte com outra geração…

Ary Fontoura é um gênio. Fiz “Rei Lear” com ele. Tem seis falas em “Fim” e é, praticamente, o Rui Chapéu. Meu próximo roteiro já tem uma coisa para ele.

Ter estado com Domingos, Ubaldo, Miele, Nelson Rodrigues, Millôr (Fernandes, desenhista e humorista)… Essa geração poderosíssima anterior a nossa… E, agora, a gente caminhando para virar esses dinossauros.

Acho que isso está no “Fim”. É um projeto maduro de uma geração que, até ontem, eram uns garotos tentando chegar, existir. É sobre isso, como a gente vai virando cada vez mais a gente, para o bem e para o mal, quanto mais envelhece.

Mamãe fala muito isso. É muito louco envelhecer porque vai morrendo todo mundo e você vai perdendo as pessoas que foram testemunhas da vida como você foi.

O que você está escrevendo de novo?

Outros dois roteiros. Uma série e uma outra coisa… Na verdade, trabalhei os diálogos, dei uma polida, num roteiro que veio. E tem uma outra história que quero escrever, mas não sei se darei conta. Livro, não estou escrevendo nenhum.

Ainda tem projeto de fazer a peça inspirada em “Adão e Eva no paraíso”, de Eça de Queiroz, sob direção de Felipe Hirsch?

Está na minha cabeça. Mas uma das coisas que mais gostei de fazer na pandemia foi o projeto da universidade Princeton’s, que chamou uns 80 brasileiros para gravar textos de Clarice Lispector. Eu peguei “O ovo e a galinha” . Me gravei em casa, com a câmera em várias posições e fui indo. Editei no E-movie.

Eu adorei aquilo. Era um texto misterioso e eu não entendia ele direito. Quando fui lendo e falando…. Agora, quero primeiro gravar o Eça de Queiroz, com música e tudo. É um projeto que quero fazer antes de ir para o palco, porque vou ter dominado aquele texto.

Ainda acha que saúde é tudo, mas que felicidade é pedir demais?

Acho. Se tiver com saúde, dê graças a Deus, minha filha.

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