Campo Grande, 13 de julho de 2024

Grandes lutas: Bastidores do UFC 1 têm prisão de Royce Gracie na véspera do evento histórico

Você, leitor fã de MMA, provavelmente sabe que naquele 12 de novembro de 1993, quando o UFC realizou a sua primeira edição do torneio, em Denver (EUA), Royce Gracie venceu três adversários na mesma noite para tornar-se campeão e provar a eficácia do jiu-jítsu consagrado pela sua família. O que talvez você não saiba é que o brasileiro foi preso na véspera e precisou ser salvo por seu irmão, Royler, que precisou se virar para resolver o problema .

– A gente chegou na cidade, estava indo treinar, e a polícia encostou. Veio uma policial super tranquila, pediu documento, não sei se o Royce não estava com o documento ou era de outro estado. E falou: “Vou ter que te levar preso”. “Tudo bem, o que eu faço?”. Algemou e levou ele preso. Levou ele, eu fiquei com o carro sem saber nada, tinha chegado há um dia do Brasil. Liguei para o meu irmão em Los Angeles, que falou: “A cadeia fecha a partir das 6h da tarde”. Era 1h ou 2h da tarde. (Senão) só podia tirar ele no dia seguinte, ia ter que dormir lá. Eu vim no hotel, meu irmão mandou o dinheiro, coisa de 400 ou 500 dólares, que era o valor da multa. Cheguei para tirar ele da prisão, 10 minutos antes de fechar. Se ele dormisse lá ia ser horrível para ele fazer um evento desse porte, três lutas na mesma noite. Deu tudo certo, tirei ele, alguns policiais que viram a luta foram se desculpar depois porque não sabiam que era o campeão do jiu-jítsu. Foi super legal. Ele ficou muito popular não só na cidade, mas também com o pessoal da polícia por causa desse episódio – contou Royler, em entrevista ao “Esporte Espetacular”.

Royce Gracie UFC 1 — Foto: Arquivo Pessoal/Jose Fraguas

Royce Gracie UFC 1 — Foto: Arquivo Pessoal/Jose Fraguas

Ao chegar na delegacia para livrar Royce, Royler descobriu que o irmão já estava até fazendo amizade com outros presos e que achou que iria dormir no local.

– A policial era uma mulher, prendeu, levou, estava errado. Ela não quis dar o direito de ele pagar depois. Como não tínhamos dinheiro, foi conduzido pra delegacia, peguei o dinheiro e levei para retirar ele. Tudo isso em um intervalo curto, estávamos indo fazer uma caminhada no dia. Quando eu tirei ele, nos últimos minutos, ele falou: “Estava pensando que ia dormir na cadeia. Já estava até falando com os colegas. O pessoal começou a descobrir que eu treinava jiu-jítsu e vim para disputar o evento, e os presos falaram: “Me ensina um truque, um estrangulamento”. O Royce é um cara dado, feliz, fácil de lidar. Levou na esportiva, não ficou chateado. Eu fiquei preocupado, tive que pegar o dinheiro e voltar, não falava inglês direito, estava de passagem nos EUA. Para mim, fiquei sem saber o que fazer, perdido, mas tudo se resolveu.

A ideia da criação do Ultimate Fighting Championship partiu de Rorion Gracie, que queria um torneio com praticantes de diferentes artes marciais para provar que o jiu-jítsu era superior às outras lutas e expandir os ensinamentos nos Estados Unidos. E a escolha por Royce como representante da família se deu de forma pensada.

– O Rorion, meu irmão mais velho, veio para os Estados Unidos e, chegando aqui, não tinha jiu-jítsu, não tinha o vale-tudo que a gente fazia no Brasil. Ele trouxe o conceito do Brasil para os Estados Unidos e resolveu montar não só um lutador contra um lutador, mas ele resolveu: “Vamos fazer um evento de três lutas numa noite, oito lutadores”. Meu pai (Hélio) e o Rorion decidiram que tinham irmãos e primos com muito mais lutas do que eu, eram melhores na época, mas eu estava no peso e na época certa. Tinha irmãos que eram mais fortes e mais leves, primos também. Iam fazer o mesmo serviço, mas o mais forte talvez não fosse mostrar tanto a eficiência do jiu-jítsu, e o mais leve talvez demorasse mais para ganhar. Então, eu estava no peso certo e na hora certa – recordou Royce Gracie.

Royce era o plano A, mas, em caso de insucesso, a família Gracie já tinha um nome selecionado para representar o jiu-jítsu na segunda edição. Seria Rickson Gracie, que acabou fazendo sua carreira no Japão e se aposentou do vale-tudo invicto com nove vitórias em nove lutas. E até a mãe de Royce colocava pouca fé de que seu filho sairia vitorioso em três lutas na mesma noite.

– Se acontecesse alguma coisa e desse errado, o Rickson entraria. mas deu tudo certo (risos). Mas todo mundo apostou contra, inclusive minha mãe. Minha mãe não queria que eu lutasse. Ela me fala até hoje: “Meu filho, não queria que você lutasse. Você era tão bonzinho, o mais magrinho de todos, teu pai botou você? Eu não queria!”. Se o Ken Shamrock ganhasse? Se um carateca ganhasse? Aí entraria o Rickson. Aí chamariam o Rickson para fazer a segunda edição, porque na época ele era bem melhor do que eu. Rickson era o campeão da família. Se acontecesse alguma coisa errada, a gente tinha o trunfo ainda – afirmou Royce.

Além de Royce Gracie, participaram do torneio do UFC 1 os lutadores: Ken Shamrock (wrestling), Patrick Smith (taekwondo), Art Jimmerson (boxe), Kevin Rosier (kickboxing), Zane Frazier (kempo), Gerard Gordeau (savate) e Teila Tuli (sumô). Além deles, houve uma luta alternativa entre Jason DeLucia e Trent Jenkins, caso algum lutador precisasse ser cortado durante a disputa.

O primeiro adversário de Royce foi Art Jimmerson. O pugilista surpreendeu ao entrar no octógono com luva em apenas uma das mãos, algo que era permitido na época. A intenção do americano era nocautear o rival com a mão sem luva, mas o brasileiro levou 2m18s para finalizar o adversário, sem sequer chegar a encaixar qualquer estrangulamento ou chave. Desesperado no solo, o lutador deu os três tapinhas, e o árbitro da luta, João Alberto Barreto, explicou.

Royce Gracie x Ken Shamrock no UFC 1 — Foto: Susumu Nagao

Royce Gracie x Ken Shamrock no UFC 1 — Foto: Susumu Nagao

– Ele não sabia nada. Ele sabia boxe. Ele achava que, como estava com a luva, ia derrubar o brasileiro, nosso Royce. Mas ele percebeu sua incapacidade. Em pé ele tinha nível de confiabilidade, natural, era a cabeça dele, a programação mental dele, e a confiabilidade que tinha na sua capacidade de potência de golpe do boxe, mas ele não conseguiu fazer isso porque o Royce tinha o conhecimento da arte marcial do jiu-jítsu – declarou Barreto.

Na semifinal, Royce Gracie enfrentou Ken Shamrock e, apesar da vitória ter ocorrido de forma até mais rápida que na primeira luta, o confronto teve polêmica, já que o americano, após bater em desistência nitidamente, tentou prosseguir no combate.

– Ele bateu, assim que eu soltei o pescoço dele, que eu larguei, ele agarrou nas minhas pernas e quis continuar. Foi a hora que eu falei no ouvido dele. “Você bateu, você perdeu, mas você quer continuar? A gente continua”. Olhei para o juiz, o juiz ficou meio sem saber o que fazer, minha mão já estava engatada no pescoço dele, no mata-leão. Já falei para o juiz “Deixa, a gente vai continuar. Deixa”. E falei no ouvido dele: “Continua, vai!”. Aí ele largou minha perna e falou: “Não, não quero mais, está certo, eu bati”.

Na decisão, Royce enfrentou o holandês Gerard Gordeau, que nocauteara seus dois adversários anteriores de forma rápida. Contra Teila Tuli, em 26 segundos. Na semifinal, diante de Kevin Rosier, em 59 segundos. Apesar da velocidade, o lutador sofreu lesões e chegou a apelar na final, mas o brasileiro não deu chances e liquidou a fatura com um mata-leão a 1m44s.

– Me lembro que olhei para ele de cima a baixo. Vi que a mão dele estava inchada, já tinha quebrado um dente do cara do sumô, e o pé dele estava inchado com os chutes. Mas ele estava tranquilo, sério, não demonstrava nada. Também não mostro expressão, estava ali para fazer meu serviço. Assim que botei ele pra baixo, já caí montado nele. Quando caí montado, ele mordeu a minha orelha. Quando ele mordeu, eu já tirei da boca dele e suspirei no ouvido dele: “Você está roubando?”. Isso no meio da luta. Ele olhou pra mim de rabo de olho… Foi a hora que dei duas cabeçadas na cara dele. Só tem duas regras: não vale botar o dedo no olho e não vale morder, o cara vem dar uma mordida na minha orelha? Cara… quando peguei ele no estrangulamento por trás de novo, como no Shamrock, no mata-leão, quando ele bateu, desta vez não larguei. Na luta anterior, larguei e o cara quis continuar. Assim que botei pra baixo, ele me mordeu. Não tinha punição na época. Só tinha o juiz falando: “Meu amigo, não morde de novo não, por favor”. “‘Ah, você bateu? Mas quer continuar? Então continua!”. As regras estavam no ar, entendeu? Desta vez agarrei no pescoço dele e não soltei, até o juiz me arrancar de cima – disse Royce.

A vitória de Royce Gracie inspirou milhões de pessoas ao redor do mundo para a prática do jiu-jítsu e do próprio vale-tudo, que depois passou a ser chamado de MMA. No Brasil, a arte suave ganhou ainda mais fama com o título de Royce no UFC 1. O humorista Sergio Mallandro, faixa-preta da modalidade, já era amigo da família na época e lembrou do impacto do feito.

– Brother, quando vi o Royce ganhando aquelas três lutas, me botei no lugar dele. Esse cara foi muito valente, muito técnico, é um Gracie, né? O sangue Gracie tem que ser respeitado porque sempre foram muito corajosos, nunca tiveram medo de nada. Nunca vi um Gracie ter medo de nada. A importância (do título de Royce) foi como o beijo na boca da mulher que você vai casar. Ele chegou ali, olhou, falou “é contigo que quero casar” e deu a seladinha no beijo que foi o início de tudo. Quando chegou ali e ganhou as três lutas, falou: “Meu irmão, jiu-jítsu é a melhor luta do mundo. Vocês viram? Aprenderam? Então agora venham até a mim que vou ensinar a vocês”. Isso teve importância no jiu-jítsu. Ninguém sabia como era o jiu-jítsu.

O ator Raul Gazolla também enxerga a vitória de Royce como determinante na popularização do jiu-jítsu no mundo.

– O Royce está pra mim, eu me atrevo a dizer, como o Bruce Lee para as artes marciais. Difícil alguém que acompanhe um pouquinho de UFC e não saiba quem é o Royce. O cara foi um divisor de águas no mundo da luta.

Após o título do UFC 1, Royce Gracie também venceu o UFC 2 e o UFC 4. Atualmente com 54 anos, ele possui cartel de 15 vitórias, duas derrotas e três empates. Seu último confronto foi em 2016, quando conquistou seu primeiro nocaute da carreira ao bater justamente Ken Shamrock.

Por Guido Nunes, Marcelo Barone e Raphael Marinho — Rio de Janeiro

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