Christina Massis teria se beneficiado com a venda de ingressos para camarotes em shows no Morumbis; gravação foi entregue ao presidente do Conselho em envelope anônimo
Por Eder Traskini e Ulisses Lopresti — São Paulo
Christina Massis, filha do presidente Harry Massis e ex-diretora adjunta de base do São Paulo, foi alvo de uma denúncia apresentada por conselheiros do clube sob suspeita de envolvimento em um suposto esquema de venda irregular de ingressos para shows realizados no Morumbis. A acusação a ela tem como base áudios aos quais o ge teve acesso.
O material foi entregue em um envelope anônimo contendo um pendrive a Olten Ayres de Abreu Júnior, presidente do Conselho Deliberativo. São recortes de conversas distintas, nas quais é possível ouvir apenas a voz de Christina.
O Conselho Consultivo, porém, não tem poder para tomar decisões sobre diretores ou o presidente do clube, por exemplo. Recentemente, o grupo chegou a não recomendar o impeachment de Julio Casares, que é um dos 11 nomes que compõem o Conselho.
Em um dos trechos, Christina indica que está ciente do vazamento do caso. Segundo ela, o pai chegou a dizer que teria de renunciar à presidência do São Paulo se os áudios se tornassem públicos.
— Mas hoje eu estava conversando à noite com meu pai, meu pai soltou uns atos administrativos para se proteger hoje.
— Ele quer contornar a situação.
— Ele está passado, ele falou que vai ter que renunciar. Que “se isso estourar eu vou ser obrigado a renunciar”.
— Se depender de mim, você não vai renunciar, porque eu tenho Pix, eu não fiquei com nada.
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Harry Massis, presidente do São Paulo — Foto: Marcos Ribolli
Em outra parte, Christina afirma ter sido convidada a participar de um esquema de venda de ingressos e menciona a presença de cambistas em um camarote ligado à vice-presidência do clube. Não é possível saber a quem ela se refere.
Ela também declara que os valores recebidos em sua conta teriam sido repassados a uma terceira pessoa, identificada como Nildes.
— Eles tão vendo como é que controla a situação, mas, assim, eu não sei mais quem pode controlar a situação.
— Fiz um Pix para Dona Nildes, que é uma mulher que eu ajudo.
— Eu não fiquei com dinheiro nenhum, todo dinheiro que caiu na minha conta eu fiz um Pix para a Dona Nildes, que é uma mulher que eu ajudo.
— Não foi para ficar o dinheiro comigo, eu não vendi nada, eu dei.
— Ah, depois ele estava tentando me fazer entrar em um esquema de venda, me passou uns ingressos, foto de ingresso, me passou para cambista.
— Tem um monte de coisa comprometedora, um monte de coisa comprometedora.
— (Inaudível) minha grana, né?!
— Ele me pedia, “eu quero presentear duas pessoas”, mas aí começou a falar em fazer esquema com camarote, que vamos trazer gente, aí um dia ele levou um cambista para o camarote da vice-presidência, eu fiquei desesperada, falei “meu, você tá louco?”, quem são esses caras, super mal encarados, para assistir o jogo, mas eu dei ingresso para ele, eu dei, só que aí ele falou vamos começar, é agora, é o momento, não sei o quê”.
No terceiro e mais curto dos áudios, é possível ouvir, além de Christina, a voz de um interlocutor. Na gravação, ele afirma estar com dois ingressos para venda e menciona o valor pedido por um comprador. Em resposta, Chris diz que os bilhetes poderiam atingir valor mais alto próximo à data do evento.
— Oi, Chris, bom dia. Eu estou com esses dois ingressos para vender, esse é o valor que ele está querendo — afirma o interlocutor.
— Quando estiver chegando próximo ao show, esses ingressos vão estar valendo cinco conto — respondeu Christina.
Em fevereiro, Christina foi afastada do cargo de diretora adjunta das equipes de base do futebol feminino do clube, função que exercia desde 2024.
O que diz Christina Massis:
Em contato com a reportagem do ge, Christina se posicionou por nota:
Há algum tempo, o São Paulo Futebol Clube tem sido marcado pela falta de transparência. No entanto, a atual Gestão é diferente e, por isso, tem sofrido tantos ataques, desde o início, com acusações infundadas.Integridade, isenção e transparência são as marcas da atual Gestão, a ponto do presidente encaminhar o caso para a competente apuração, independentemente de grau de parentesco.
Tenho plena consciência da lisura da minha conduta e, no momento oportuno, serão prestados os esclarecimentos necessários ao SPFC. Para agora, adianto que o tal áudio é uma lamentável e sensacionalista edição fora de contexto”.
Harry Massis se manifestou em nota divulgada à imprensa nesta sexta-feira à tarde:
“Há mais ou menos uma semana, recebi com surpresa e indignação o relato da minha filha Christina sobre a revenda de ingressos de show. Não compactuo com a lamentável atitude dela e defendo que a comissão de ética do clube aprofunde as apurações sobre o caso. Não tenho compromisso com erro ou malfeito de nenhuma ordem. Pouco importa se a pessoa em questão tem meu sangue ou não.
A Christina é maior de idade, tem seu próprio CPF e deve responder pelos seus atos. Durante minha gestão, minha maior missão é ter tolerância zero com qualquer atitude eticamente reprovável. Isso vale para todos, até para minha filha. Reafirmo que só soube do caso há poucos dias e que fui também chantageado para que o caso não viesse à tona. Mas aparentemente não me conhecem. Aqui tem um homem íntegro, que tem como único intuito passar o São Paulo Futebol Clube a limpo, custe o que custar e doa a quem doer”.
Reunião no Conselho Consultivo
Nesta sexta-feira, o Conselho Consultivo do São Paulo, formado por ex-presidentes do clube e do Conselho Deliberativo, vai se reunir em um prédio localizado na Zona Oeste da capital paulista para debater o caso.
Veja quem são os 11 membros do Conselho Consultivo do São Paulo:
- Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco;
- Carlos Miguel Aidar;
- Ives Gandra;
- José Eduardo Mesquita Pimenta;
- Paulo Amaral;
- Marcelo Pupo;
- Olten Ayres;
- José Carlos Ferreira Alves;
- Julio Casares;
- Fernando José P. Casal de Rey;
- Milton José Neves
O São Paulo passou a figurar nos últimos meses no noticiário policial. Desde o ano passado, a Polícia Civil atua em conjunto com o Ministério Público na apuração de suspeitas de irregularidades atribuídas a dirigentes da gestão de Julio Casares, que presidiu o clube entre 2021 e janeiro de 2026.
Atualmente, três inquéritos estão em andamento. Em todos, o Tricolor é tratado como vítima, enquanto as investigações buscam esclarecer se houve condutas de dirigentes que tenham causado prejuízo ao clube.






