Campo Grande, 18 de junho de 2026

Messi ainda chora: como uma noite de Copa do Mundo emocionou o astro que já viveu quase tudo

Por Jorge Natan — Kansas City, EUA

O que o futebol ainda pode oferecer de diferente a Lionel Messi? Títulos já foram muitos, inclusive o da Copa do Mundo. Jogos? Milhares, incluindo 27 em Mundiais – um recorde. Gols? Muitas centenas, quase chegando a mil. Mas, aos 38 anos e com uma carreira que o coloca como um dos maiores jogadores da histórias, Messi ainda chora.

Messi chora ao comemorar gol da Argentina — Foto: Ulrik Pedersen/NurPhoto via Getty Images

Messi chora ao comemorar gol da Argentina — Foto: Ulrik Pedersen/NurPhoto via Getty Images

Chora em uma noite de primeira rodada de fase de grupos de Copa do Mundo. Chora em um duelo contra a Argélia, adversário duro, mas não entre os mais badalados de sua história. Chora por ter vivido, nesse cenário, na pacata cidade de Kansas City, nos Estados Unidos, um raro momento inédito: um hat-trick que o tornou o maior artilheiro da história das Copas. Chora porque balançar as redes em um Mundial trouxe alívio em meio a um drama pessoal.

– A verdade é que se trata de uma questão completamente alheia ao esporte. Passei por alguns dias difíceis e complicados, mas sou grato a toda a delegação, a todos os meus companheiros de equipe, porque eles sempre estiveram ao meu lado, me dando muita força para superar isso, e é só isso.

A fala de Messi é simbólica de seu momento de lua de mel com a Argentina e com a Copa do Mundo. Quem diria há quatro anos que o Mundial deixaria de ser um tema amargo para passar a ser como um remédio para o jogador?

Messi marca três vezes na vitória da Argentina sobre a Argélia na Copa do Mundo — Foto: Getty Images

Messi marca três vezes na vitória da Argentina sobre a Argélia na Copa do Mundo — Foto: Getty Images

O início da despedida

 

A Copa começou para Messi em um tom de despedida, em meio à vontade de aproveitar o Mundial que tende a ser o mais leve de sua carreira. A sexta Copa do Mundo do craque não veio com o rótulo de fardo das outras cinco, quando Messi sentia sobre si a pressão de tentar levar a Argentina de novo às glórias. Em 2026, não: chegou com seus companheiros como atuais campeões, curtindo até o fim o trono ostentado nos últimos anos.

Mas, para Messi, leveza pode ser o prenúncio de genialidade. Que não vem sem uma boa dose de dedicação. O camisa 10 deu o recado aos torcedores e companheiros que o idolatram com gestos ainda no começo do duelo de terça-feira, aos dois minutos, ajudando em um desarme perto da defesa. Faria isso outras vezes no jogo, como quando ganhou uma dividida com Moussa e ainda impediu um escanteio.

Messi marca três vezes na vitória da Argentina sobre a Argélia na Copa do Mundo — Foto: Getty Images

Messi marca três vezes na vitória da Argentina sobre a Argélia na Copa do Mundo — Foto: Getty Images

O primeiro em um chute colocado, que Zidane não conseguiu defender. Explosão nas arquibancadas, e comemoração emocionada no campo: um choro de uma estrela, que comoveu os companheiros e gerou uma onda de abraços ao camisa 10. Depois, sozinho, Messi levantou as mãos para os céus algumas vezes. Caminhou, olhou para os torcedores, e buscou se recompor.

Por pouco, a noite não ficou melancólica para o astro. A vontade de ajudar na marcação não foi acompanhada pela precisão ao tentar um desarme. Messi atingiu em cheio Mandi, em um lance que gerou muita reclamação do jogador e de outros atletas da Argélia. O árbitro, porém, não mostrou nenhum cartão, e o VAR não recomendou a revisão. De fato, a Copa do Mundo anda de bem com o camisa 10 argentino.

Ao fim do primeiro tempo, os jogadores da Argentina deixaram o campo todos juntos, seguindo um homem que ia à frente: claro, Lionel Messi. Uma imagem simbólica de um time que não esconde a admiração por seu líder.

– Os rapazes o veem como um deus, mas também como um garoto de bairro – resumiu depois do jogo o técnico Lionel Scaloni.

Messi comemora gol pela Argentina — Foto: Roberto SCHMIDT / AFP

Messi comemora gol pela Argentina — Foto: Roberto SCHMIDT / AFP

Pronto para o novo aos 38 anos

 

O segundo tempo do confronto em Kansas City ajudou a endeusar ainda mais o capitão argentino. Messi voltou mostrando que queria jogo: tentou um chute, que foi para fora. E depois apareceu com um faro de artilheiro para aproveitar rebote de Luca Zidane. Uma comemoração não tão emocionada como a primeira, mas que gerou mais uma onda de reverências no estádio.

Não foi um gol qualquer entre os 920 que ele ostenta na carreira: esse o colocou como o maior artilheiro da história das Copas do Mundo, com 16 gols, ao lado de Klose. Um feito absurdo e que poderia ser imprevisível para quem andava trocando farpas com o torneio até 2022. E ainda com uma sensação inédita: Messi jamais havia feito um hat-trick em Copas.

Messi cumprimenta Scaloni em Argentina x Argélia, na Copa do Mundo — Foto: REUTERS/Siphiwe Sibeko

Messi cumprimenta Scaloni em Argentina x Argélia, na Copa do Mundo — Foto: REUTERS/Siphiwe Sibeko

A noite histórica em Kansas City mostra que, apesar da idade avançada e ter uma das carreiras mais vitoriosas da história do esporte, Lionel Messi está pronto para viver o novo na Copa do Mundo 2026. O primeiro a entrar em campo em seis edições do Mundial pode ter mais sete capítulos a escrever nessa relação repleta de emoção e choro – muitas vezes de tristeza, mas recentemente só de alegria.

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