Novo documentário dirigido por João Wainer relembra a trajetória de Zico, 73, ídolo absoluto do Flamengo; o carioca disputou três Copas do Mundo pela seleção, reinventou o futebol japonês e rodou o mundo no papel de técnico
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Do subúrbio carioca a Kashima, no Japão, o documentário Zico, o Samurai de Quintino chegou aos cinemas no fim de abril com cenas inéditas e íntimas de Zico, 73, um dos maiores nomes da história do futebol e ídolo absoluto do Clube de Regatas do Flamengo, no qual atuou entre as décadas de 1970 e 1980.
Dirigido por João Wainer, o filme narra a jornada do Galinho da categoria de base ao status de lenda que ajudou a reinventar o futebol nipônico no início dos anos 1990, quando foi jogar no Sumitomo Metals SC, hoje Kashima Antlers. Aposentou-se dos gramados em 1994 para, dois anos depois, virar diretor técnico do time asiático, cargo que, após uma longa pausa, retomou em 2018. A experiência o levou a alcançar a liderança da Seleção Japonesa de Futebol entre 2002 e a Copa do Mundo FIFA de 2006.
Ao longo da carreira, o craque treinou clubes da Grécia, Rússia, Turquia, Índia, Uzbequistão… Foram cerca de três anos de produção para retratar Zico nas telonas. Vindo de uma família com quatro irmãos também boleiros, ele herdou a disciplina do pai meticuloso, que nunca o viu ao vivo em campo e fala com exclusividade à GQ Brasil na edição junho/julho, com Endrick na capa, sobre as expectativas rumo ao Hexa.
HERANÇA PATERNA
Eu adquiri o perfeccionismo do meu pai. Ele era um alfaiate muito meticuloso e cuidadoso. Não gostava se o cliente devolvesse o terno porque não estava legal. Um assistente português dele sempre dizia: “Mas, seu Antunes, o terno já está bom. Vamos liberar”. Meu pai precisava de dez provas. Eu observava a maneira como ele fazia os cortes, marcava as medidas com giz. Percebi que procurei a mesma perfeição nos exercícios e levei seus fundamentos para o meu futebol.
DIPLOMA
Meu pai nunca me viu jogar ao vivo. Para ele, ter um canudo era a única coisa que ninguém poderia tirar de você; o estudo representava a alimentação da vida. Eu e meus irmãos só podíamos jogar se nos formássemos (quatro irmãos do atleta também atuaram no futebol profissional). Cumprimos com a nossa palavra (Zico se formou em educação física) e demos essa alegria a ele. Só que ele nunca foi me ver jogar porque ficava muito nervoso. Umas duas vezes, foi ver meu irmão Edu (Antunes Coimbra, ídolo do América) e a torcida pedia para quebrar a perna dele, porque era muito ensaboado. Meu pai partiu para cima dos caras e nunca mais foi assistir a jogo de filho nenhum.
ROUBEI TUA FÃ
Quando o argentino Narciso Doval chegou ao Flamengo, eu ainda estava no juvenil, lá pelos anos 70. Ele era da moda, um cara muito alegre, boa-pinta. As meninas viraram fãs. A Sandra (Carvalho de Sá, esposa de Zico) tinha até fotos. Ele, que jogava como ponta-direita, saiu do clube. Quando retornou, assumiu como meia e viu uma queda na performance. Em 1974, o Zagallo deixou o Flamengo e entrou o Joubert Meira, então técnico do juvenil, que disse que a briga para virar titular era entre mim e o Doval. Eu brincava com ele: tomei sua camisa 10 e uma das suas fãs (risos). Quando me casei com a Sandra (em 1975), viajamos para Buenos Aires e Bariloche, na Argentina. Ele criou nosso roteiro e se tornou um grande amigo, mesmo depois de ir para o Fluminense.
Meu primo sofreu uma perseguição sem sentido. A irmã dele namorava um cara de grêmio de faculdade. Chamavam-no de subversivo. Um dia, minha tia passou mal e meu irmão Nando (primeiro jogador de futebol a ser anistiado no Brasil) a trouxe para casa. De repente, apareceu a polícia e levou todo mundo em cana achando que se tratava de um encontro para tramar algo. Os meus primos acabaram presos. Meu irmão Edu não foi convocado para a Copa de 1970 porque a comissão técnica era da Escola de Educação Física do Exército. Eu não joguei nas Olimpíadas de 1972 por causa disso. O técnico da seleção olímpica até convenceu meu pai a não assinar meu contrato como profissional (à época, só amadores disputavam as Olimpíadas), mas quem mandava mesmo eram uns caras do Exército.
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QUASE FORA DO CAMPO
Depois de ser cortado, quis parar de jogar e avisei meu pai. Senti nele uma tristeza muito grande. Eu era o único dos filhos no Flamengo, seu time do coração. Sete jogadores de ataque do Pré-Olímpico foram cortados. Talvez o Exército nem tenha feito isso só pela história com a minha família, mas porque mandava em tudo e queria ele mesmo escolher. Meu pai acatou minha decisão, mas meus irmãos me disseram: “Esses caras vão passar, o Flamengo vai ficar”. Falei com o clube e eles me aceitaram de volta aos treinamentos. Eu teria cometido um grande erro, mas com isso perdi um ano de contrato.
FUNERAL PARA UM AMIGO
O Geraldo (conhecido como Assoviador) veio para o Flamengo nos anos 70. Nós jogamos o Campeonato Juvenil e viramos campeões juntos. Pô, era uma amizade grande: eu ia na casa dele, ele vinha na minha. Em 1973 nos tornamos campeões no profissional. Tínhamos começado a jogar naquela fase de solteirice, de badalações. Ele me apresentou as músicas do Billy Paul. Vivíamos juntos, até eu me casar.
No ano seguinte, eu estava em uma excursão pelo Nordeste quando escutaram na rádio do hotel e me avisaram (que Geraldo havia morrido após uma cirurgia de amígdalas). O mundo desabou. Senti uma porrada muito forte. Quando você perde um cara como esse, com quem tem uma identificação grande, fica difícil de superar.
LESÃO NO JOELHO
Sempre pedi a Deus que me fizesse parar de jogar bola quando não tivesse mais vontade, garra, felicidade. Nunca por contusão. Fiquei em uma dúvida cruel (quando tomou uma dividida do jogador Márcio Nunes, do Bangu, em 1985, e lesionou o joelho). Parti para a Copa de 1986 e só operei depois. Por isso, eu me arrependo de ter desobedecido ao meu coração. A única opção era uma cirurgia nos Estados Unidos. O médico criou uma operação para ligamento cruzado que não existia. Virei praticamente uma cobaia. Voltei a jogar após nove meses, mas esse período se mostrou um parto terrível, com dúvidas e incertezas. Os preparadores físicos precisavam me dar banho, porque eu usava uma bota, trocada a cada duas semanas. Nos dois primeiros meses, não conseguia esticar a perna. Com quatro meses, coloquei o pé no chão. Sofri uma atrofia de 7 centímetros, e minha perna parecia meu braço. Desde então, se meu coração diz para não fazer algo, não faço. Era uma Copa do Mundo, não uma pelada.
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SELEÇÃO CANARINHA
A gente precisa torcer muito pela seleção, porque o Brasil passa por um momento de mudança de mentalidade. Temos um novo treinador (Carlo Ancelotti), que — apesar de já possuir conhecimento jogando contra, dirigindo e treinando brasileiros — deve conseguir buscar o comprometimento do atleta a partir do entendimento de quão importante será uma conquista na vida de cada um. No futebol, vale aquele que erra menos, que aproveita o erro adversário. Não basta ser o melhor. É a única modalidade em que o mais fraco pode ganhar do mais forte. Não existe zebra no tênis, no basquete, no vôlei.






