Ataque às urnas e ofensiva contra o STF integram tática do senador que tenta emular o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro
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Pressionado pela piora no desempenho nas pesquisas e por uma sequência de desgastes na pré-campanha, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sofreu mais um revés com o aviso dado pelo presidente do PP, Ciro Nogueira, de que o partido não embarcará em sua coligação. A decisão implica também em uma negativa do União Brasil, já que ambas as siglas compõem uma federação. Em paralelo, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) vem emulando o pai com uma radicalização de discurso, inclusive com a propagação de informação falsa sobre as urnas eletrônicas — movimento que ajuda a afastar aliados mais ao centro.
O Republicanos, por exemplo, legenda do Centrão que deve virar o foco de uma tentativa de aproximação diante da saída da federação, também vê “as portas se fechando” para qualquer alinhamento já no primeiro turno, segundo interlocutores. O discurso a diplomatas, anteontem, no qual Flávio levantou suspeitas sobre o sistema eleitoral e defendeu o envio do “máximo possível” de observadores estrangeiros para acompanhar a eleição de outubro, ajudou a minar a percepção sobre a capacidade do presidenciável de ampliar costuras políticas para além da base bolsonarista.
Se colabora para o afastamento de possíveis aliados, o ataque às urnas faz parte de uma estratégia maior de endurecimento da retórica. Recentemente, o senador também ampliou a ofensiva contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e, em especial, o ministro Alexandre de Moraes, dois dos alvos prioritários do pai enquanto comandou o Palácio do Planalto. A tática inclui ainda transmissões ao vivo com estética simplistas e até o estímulo a aglomerações de apoiadores na passagem por aeroportos, cenas frequentes nos últimos anos com Jair como protagonista.
Reservadamente, integrantes das cúpulas de União Brasil, PP e Republicanos afirmam que a inflexão indica que o senador está cada vez mais próximo da retórica do pai e mais distante do perfil pragmático apresentado no início da pré-campanha, algo almejado pelo Centrão como condição para apoiar sua postulação. Em dezembro do ano passado, Flávio definiu-se como “moderado” durante encontro com empresários em São Paulo e chegou a se classificar como “o Bolsonaro que todo mundo quer”.
— Ele não quis tomar vacina, eu tomei duas doses — contou o parlamentar ao GLOBO naquele mesmo mês, em outra tentativa de se diferenciar do pai.
Diretórios liberados
Na noite de anteontem, dirigentes do PP reuniram-se com Ciro Nogueira em Brasília para discutir o cenário, e ali ficou acertado que a sigla adotá neutralidade na disputa nacional. Dessa forma, os diretórios estaduais ficam livres para escolher quais candidatos apoiarão. Há estados em que o PP deve seguir com o senador, como São Paulo. E em outros, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), caso da Paraíba.
Mais do que isso, Flávio não consegue ampliar o tempo de TV que terá durante a propaganda eleitoral.
Três integrantes da cúpula do PP dizem que, agora, resta ao União Brasil comunicar que também ficará neutro. O presidente do partido federado, Antonio Rueda, já havia indicado a interlocutores nas últimas semanas que esse deveria ser o caminho.
Como o GLOBO mostrou, a campanha de Flávio tratava a conversa com Ciro Nogueira como uma última tentativa para reverter a tendência de neutralidade da federação. Também foi oferecida a vice para a senadora Tereza Cristina (PP-MS), mas ela recusou afirmando que quer disputar a presidência do Senado em 2027.
Interlocutores de Ciro afirmam, sob reserva, que o senador, antes entusiasta da aliança com Flávio, se irritou com a postura do pré-candidato de se afastar após o presidente do PP ser alvo de operação da Polícia Federal (PF) que investiga suposta atuação do parlamentar para beneficiar Daniel Vorcaro, do Banco Master. Curiosamente, a mudança de tom na pré-campanha tem como marco inaugural justamente a divulgação de diálogos entre Flávio e Vorcaro nos quais ele cobra dinheiro para financiar o filme “Dark horse”, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro.
Mudança de tom
Parte da equipe de Flávio concluiu que, em meio aos desgastes sucessivos, reforçados pela vinculação ao dono do Master, seria necessário consolidar novamente o eleitorado bolsonarista antes de tentar conquistar novos segmentos. Foi nesse contexto, por exemplo, que vídeos de Jair passaram a aparecer com mais frequência nas redes do filho, assim como jingles que começaram a explorar de forma mais explícita o legado do pai. Além disso, agendas pelo país passaram a repetir a mobilização de aliados em aeroportos, como acontecia nas campanhas de Bolsonaro — até mesmo o grito de “mito” voltou a ecoar regularmente.
Flávio também resolveu adotar recentemente as transmissões ao vivo, que se transformaram em uma das principais ferramentas para responder a crises e falar diretamente com os apoiadores, reproduzindo um modelo consolidado por Bolsonaro durante a Presidência. Em uma live recente, organizada após decisão de Moraes que restringiu por 90 dias as visitas ao pai, o senador apareceu em uma sacada no Rio de Janeiro, tendo apenas uma bandeira do Brasil ao fundo.
O cenário improvisado e o formato mais espontâneo foram comemorados por integrantes da equipe, que notaram maior engajamento na ofensiva, e foi repetido na semana seguinte durante uma live com Daniella Marques, cotada a vice, para apresentar o plano de governo voltado ao público feminino. A ex-presidente da Caixa, no entanto, é filiada ao Republicanos, o que condiciona a composição da chapa a um acordo partidário.
O diagnóstico positivo sobre a tática, porém, está longe de ser unânime. A repercussão das declarações sobre as urnas eletrônicas provocou incômodo na cúpula do PL e ampliou a discussão sobre os rumos da campanha. A leitura predominante entre dirigentes do partido é que o senador errou ao retomar um tema que levou seu pai à inelegibilidade e que pouco contribui para ampliar o eleitorado de Flávio.
Aliados de fora da sigla também vocalizaram abertamente críticas à postura do senador. Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, estado tratado como prioritário para a campanha, reafirmou “confiar nas urnas” e cobrou que se discutam projetos.
— É importante olhar o que o Brasil vai precisar, sair dessa discussão que não vai levar a lugar nenhum e começar a pensar em projetos — disse Tarcísio na noite de ontem, na comemoração dos 25 anos da BandNews TV.





