Campo Grande, 24 de abril de 2026

Presidente do Flamengo questiona empréstimo de ex-patrocinadora do Palmeiras ao Vasco

Por Heitor Esmeriz — Campinas

O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, citou o empréstimo de R$ 80 milhões que o Vasco recebeu da Crefisa, ex-patrocinadora do Palmeiras, ao defender a transparência na criação de uma liga única. O dirigente questionou o acordo, que, segundo ele, abre uma brecha para que um mesmo dono tenha dois clubes no país.

A declaração foi dada nesta quinta-feira, durante a participação do dirigente na segunda edição do CBC & Clubes Expo, organizada pelo Comitê Brasileiros de Clubes, em Campinas.

— Flamengo sempre foi a favor de uma liga nacional. Isso é bom que seja dito para todo mundo. O que acontece é que, quando você vai se juntar com alguém, quando vai casar, vou criar uma metáfora aqui para todo mundo entender, o casamento na comunhão parcial de bens funciona assim: o que você tem é seu, o que você vai construir de novo vai ser dividido de igual maneira. Quando você casa com alguém, e esse alguém quer invadir o que você tem, o nome disso é desapropriação ou invasão. O Flamengo é contra isso, é uma questão de princípio, nada contra ou a favor da liga. É óbvio que o Flamengo é a favor da liga. A liga pode duplicar, triplicar o valor do dinheiro do futebol no Brasil.

— O problema, e o diabo mora nos detalhes, é que forma você vai fazer. Vamos falar, por exemplo, especificamente do caso de Palmeiras e Vasco. No mundo inteiro você tem legislações que não pode o mesmo dono ter dois clubes. “Ah, mas ali não tem propriedade cruzada”. Claro que tem, e a legislação nacional é clara em relação a isso. Qual instituição financeira vai emprestar dinheiro para vocês e pedir como garantia o título da sua dívida? Quem faria isso? Só quem quiser tomar conta da sua casa. Só olhar o caso do empréstimo da Crefisa ao Vasco da Gama. Qual foi a garantia solicitada? Eu, se fosse banqueiro, pedia o estádio de São Januário, que é um ativo real, como garantia. Quem poderia pedir ações da SAF como garantia? Talvez quem queira assumir a SAF do Vasco. Acho que isso é muito claro e óbvio.

— Não vamos misturar as coisas. Quando falamos de Liga no Brasil, a Liga tem que existir em cima de propósitos, princípios e valores transparentes para todo mundo. O Flamengo não é contra a Liga, mas o Flamengo não vai compactuar com nada que ele ache que não seja correto, decente, ainda que outros clubes fiquem incomodados e se escondam atrás de subterfúgios de que o Flamengo é contra a liga. Isso é uma grande bobagem.

Bap, presidente do Flamengo, durante evento em Campinas — Foto: Heitor Esmeriz

Bap, presidente do Flamengo, durante evento em Campinas — Foto: Heitor Esmeriz

Bap também criticou a recuperação judicial do Botafogo após a SAF ter aumentado a dívida do clube:

— Entendo que a gente não pode ficar olhando para trás. No videoteipe todo mundo é genial. Mas o modelo precisa ser revisto. Vamos pegar esse exemplo (Botafogo). Posso estar equivocado na ordem de grandeza dos números, mas quando essa SAF foi constituída eram R$ 700 milhões de dívidas. Talvez eu esteja equivocado no número exato. Hoje, pelo que se lê na mídia, o valor é três vezes e meia maior que o inicial. Aí você pega a recuperação judicial, e está incluso a primeira parte da dívida que você entrou em tese para cobrir. Aí não cobriu a dívida antiga, fez R$ 1 bilhão e pouco de dívida a mais e agora um pacote único de reformulação. É aprender com isso.

Outra crítica que o presidente do Flamengo fez foi em relação aos gramados sintéticos, reforçando a posição do clube em ser favorável à grama natural:

— Opinião do Flamengo sobre esse assunto é muito clara. O Flamengo entende que futebol de alto nível, e basta você ver as cinco maiores ligas de mundo, onde você tem campo de plástico? Vai montar uma Liga no Brasil para ficar maior, mais lucrativa e com campo de plástico? É brincadeira isso. Mas é preciso discutir essa situação dentro da CBF. Flamengo já fez sua consideração. Campo de plástico é uma forma de manter futebol vivo em países que passam oito, nove meses do ano debaixo de gelo. Aí a gente pega uma ideia dessas e traz para cá para ter custo menor de manutenção? Não é só por isso.

Bap, presidente do Flamengo, durante reunião  — Foto: Mariana Sá/CRF

Bap, presidente do Flamengo, durante reunião — Foto: Mariana Sá/CRF

Antes de falar com a imprensa, Bap foi um dos convidados de uma palestra sobre a reforma tributária que vai deixar os clubes associativos com uma carga tributária maior do que as SAFs, por exemplo. Haverá uma Audiência Pública na Comissão de Esporte (CESP) na terça-feira, dia 28 de abril, para debater o impacto disso nas organizações esportivas sem fins lucrativos.

— O esporte nacional tem vivido de algumas esmolas, de esmolas há alguns anos. Vou dar os termos claros. Agora estão querendo tirar a esmola da gente achando que isso vai pagar a dívida. Sabe o que vai acontecer? Vai acabar com o esporte nacional, e ano que vem vão inventar outra taxação sobre outro segmento. Temos uma série de problemas no Brasil, e tenho a convicção de dizer que tirar dinheiro do esporte não é um tiro no pé, é um tiro na cabeça. O esporte contribui em todas as etapas de formação do atleta e do cidadão – afirmou o dirigente do Flamengo.

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