Campo Grande, 8 de julho de 2026

COMO AS PLACAS DAS COPAS EXPLICAM O MUNDO

Em 92 anos de Copa do Mundo, a força da grana na publicidade começou com joalherias suíças, foi para bancos internacionais e cartões de crédito até chegar à criptomoeda.

O que não mudou é o amontado de fotógrafos e cinegrafistas ávidos pelos melhores ângulos de craques eternos. Ao redor, a FIFA aprendeu rapidinho que as placas, aquele espaço retangular na beira do campo, valiam até mais do que o espetáculo. Afinal, mais de 1 bilhão de pessoas assistem aos grandes jogos da Copa.

Anos 30

O Centenário tinha sido erguido em oito meses para receber a Copa. As paredes ficaram cinzas, as arquibancadas peladas, os topos completamente vazios. Não havia onde colocar marca, e tampouco havia interesse em colocá-las.

O cinza do concreto era a cor predominante no estádio Centenário, em meio ao mar azul das bandeiras do Uruguai e da Argentina, as finalistas daquela primeira edição. Ali, a Casa Bayer, uma farmacêutica alemã que tem sede na capital uruguaia até hoje, patrocinou um folheto institucional do evento.

Na Itália de 1934 e na França de 1938, o alto das arquibancadas já tinha letreiros pintados à mão. A publicidade de campo nascia como cartaz urbano: remédios, automóveis, bebidas, relógios, lojas e propaganda nacional no mesmo enquadramento.

Quatro anos depois, a Itália que vivia sob regime do fascismo de Benito Mussolini já expõe as primeiras marcas.

1930

Publicidade na Copa do Mundo de 1930

1934

Publicidade na Copa do Mundo de 1934

1Rádio Marelli: nascida em Milão em 1929, representa a tecnologia da informação que revolucionava o consumo de notícias.
2“Acquistate Prodotti italiani”: o letreiro dá o tom da propaganda nacionalista com seu “compre produtos italianos”. A famosa Acqua San Pellegrino e os pneus Pirelli, todos italianos, estampavam os improvisados letreiros dos estádios.
1938

Publicidade na Copa do Mundo de 1938

1Galeries Lafayette: A mundialmente famosa loja de departamento de Paris já tinha quase 40 anos quando patrocinou o primeiro Mundial da França.
2Suze: uma das primeiras grandes bebidas alcoólicas anunciadas. A marca ainda existe, é de 1889, e trata-se de um licor aperitivo francês muito popular.

No mercado do pós-primeira guerra mundial, os anunciantes dos anos 30 tinham correntes de bicicletas, aspirinas, bebidas e cigarros e muitos produtos do regime fascista italiano, com Fiat, Pirelli e rádio.

A Copa do Mundo do Brasil tinha o então Maior do Mundo. O Maracanã era um colosso para 200 mil pessoas, um enorme “painel publicitário” na divisão do anel inferior para o superior do estádio. Mas a superlotação muitas vezes fazia das pernas dos torcedores uma “cortina” para os anunciantes.

O Mundial também serviu para divulgar a propaganda brasileira para o consumo interno – afinal, a rádio ainda era o meio de comunicação da época.

1950

Publicidade na Copa do Mundo de 1950

1Faixa Azul era o apelido da cerveja produzida pela Antarctica em Ribeirão Preto. A “Faixa” tinha o pinguim da cervejaria e uma faixa azul na embalagem. O Mundial do Brasil também tinha o refrigerante “Guaraná Champagne”, da mesma Antarctica.
2Exposição: a gigante de loja de departamento paulista anunciava a novidade do “crédito sem fiador”, uma campanha para popularizar o consumo no país.
1954

Publicidade na Copa do Mundo de 1954

1Longines: outra marca local, a empresa suíça de relógios estampa seu nome logo acima do mostrador do cronômetro oficial.
2Toblerone: o famoso chocolate suíço anunciou com destaque no topo da torre do relógio. Na mesma torre, propaganda do cigarro Continental.
1958

Publicidade na Copa do Mundo de 1958

1Oscaria: acima à direita, no anel intermediário, as marcas locais ainda são carro-chefe no primeiro título mundial do Brasil, como esta famosa rede sueca de lojas de calçados.
2Skandinaviska Banken: um banco sueco em faixa horizontal. Nos demais espaços, propagandas das TVs Philips, Conserfon e Telefunken.

Anos 60

A terceira Copa sul-americana teve o bicampeonato brasileiro e menor alcance publicitário num Chile marcado dois anos antes por terremoto devastador. A compensação veio em 1966, na única Copa da Inglaterra até hoje.

1962

Publicidade na Copa do Mundo de 1962

1966

Publicidade na Copa do Mundo de 1966

1Newcastle Brown Ale: a cerveja tinha o slogan “Britain’s Best” (A Melhor da Grã-Bretanha).
2Fyffes: outra marca britânica, a irlandesa era empresa de importação de frutas, especialmente bananas.

Quando a final de 1970 foi ao ar, milhões de aparelhos sintonizaram uma Copa em cores pela primeira vez. De repente, o que estava nas placas precisava funcionar para a TV: contraste, cor e leitura à distância.

Em 1974 e 1978, o painel cresce em volume e variedade. Marcas locais e multinacionais passam a dividir o mesmo retângulo, já mirando um público que não estava apenas no estádio.

1970

Publicidade na Copa do Mundo de 1970

1Ron Castillo: a marca de rum é de Cuba e tem forte presença no mercado da América Central. Outra empresa que foi adquirida ao longo dos anos.
2Colubiazol: um spray bucal com o slogan “quem usa Colubiazol não perde a voz no futebol” no México.
3Datsun: uma fabricante de automóveis japonesa, hoje com o nome Nissan, é um símbolo da força da indústria nipônica.
4Pinturas International: a colorida Copa com propaganda da marca de tintas que deu o tom do gigantesco Azteca.
1974

Publicidade na Copa do Mundo de 1974

1Dry Sack: mais uma marca de bebidas tradicional. A Dry é um tipo de vinho espanhol.
2C&A: rede internacional de varejo de moda, muito forte no mercado brasileiro.
1978

Publicidade na Copa do Mundo de 1978

1Coca-Cola: a gigante dos refrigerantes é absoluta na Copa da Argentina, com enormes espaços publicitários.
2Campari: a marca italiana de bebidas divide espaço com propaganda de TVs.
3Casas Pernambucanas: uma das maiores e mais antigas redes de varejo do Brasil. Fundada em 1908 no Recife por um sueco.

A Copa de 1978, na Argentina, foi a primeira com João Havelange na presidência da Fifa – ele havia sido eleito em junho de 1974. A Copa sob a ditadura argentina teve Aerolineas Argentinas e marcas brasileiras como Mesbla e Café do Brasil.

Nos anos 80, a publicidade caminhou da madeira pintada para o pixel iluminado. O telão eletrônico e os anúncios rotativos mudaram a escala do painel.

Não era LED ainda, mas era a transição para a luz, para o movimento e para uma presença comercial mais cara e padronizada.

1982

Publicidade na Copa do Mundo de 1982

1Metaxa: marca grega de bebida, uma mistura de destilado e vinho.
2Canon: quem não quer uma recordação da Copa? A marca japonesa reflete a disputa com gigantes do setor de foto e filmes, como a Fujifilm e Kodak.
1986

Publicidade na Copa do Mundo de 1986

1Camel: Maradona controla a bola para fazer o histórico gol contra a Inglaterra. No outro lado do campo, propaganda de cigarro.
Nos anos 90, a padronização global ganhou força. As placas passaram a receber marcas maiores de luxo, cada dia mais globais e ainda mais pensadas para a transmissão.

O painel deixa de ser apenas uma soma de anúncios locais e passa a se aproximar de uma gramática comercial global. O marco da Copa dos EUA (1994) também traz gigante de cartão de crédito para o guarda-chuva da Fifa.

1990

Publicidade na Copa do Mundo de 1990

1Grana Padano: apesar de global, a Fifa mantém a abertura para grandes marcas locais. O Grana Padano é italiano e um dos queijos mais tradicionais e consumidos do mundo.
2Alfa Romeo: outro exemplo é a marca de carro de luxo, clássico, do início dos anos 1900.
3Gillette: a multinacional americana de produtos masculinos para barba tem presença forte nas últimas Copas.
1994

Publicidade na Copa do Mundo de 1994

1McDonald’s: o “fast food” na Copa. A lanchonete que é gigante mundial é onipresente nos estádios americanos.
2MasterCard: outra gigante americana se torna uma das parceiras mais longevas da Fifa e do futebol.
3Energizer: ao lado de McDonald’s, a marca de pilhas e baterias era uma novidade tecnológica nas placas.
1998

Publicidade na Copa do Mundo de 1998

1Crédit Agricole: o Mundial da França abre espaço para um dos maiores grupos bancários da Europa e o maior banco de varejo da França.
2France Telecom: hoje chamada de Orange, a gigante de telecomunicações fornece telefonia fixa e aproveitava o boom de celular e o início da popularização da internet.
3HP Hewlett Packard: a HP é considerada pioneira do Vale do Silício da Califórnia. Com desenvolvimento de hardware, é outro reflexo da revolução nas comunicações.
A Fifa abriu os anos 2000 com 10 parceiros oficiais, segundo levantamento do veículo brasileiro Sport Insider. Era tempo de massificação de portais de internet mundo afora e do mercado asiático aproveitar a primeira Copa no continente.

economia digital deixava de ser periférica. Serviços, plataformas e telecomunicações passavam a disputar o mesmo espaço antes dominado por produtos físicos.

2002

Publicidade na Copa do Mundo de 2002

1Yahoo!: fundado em 1994 na Califórnia, o portal entrava no top 10 de anunciantes da Copa. Era a primeira aparição de uma empresa “apenas” de internet nas placas e simbolizava a mudança na comunicação no planeta.
2Fuji Xerox: a Copa da Coreia do Sul e do Japão teve predominância de grandes marcas orientais, mas a Fuji Xerox tinha um pé no Japão e outro nos EUA. A marca é uma “joint venture” – união estratégica para explorar nova atividade econômica – da Fuji com a Xerox, voltada para serviços de escritório.
3Hyundai: estreante e com o pé na porta, a marca de carros coreanos substitui a Chevrolet e outras empresas de automóveis.
2006

Publicidade na Copa do Mundo de 2006

1Powerade: marca do grupo Coca-Cola traz o tempo das bebidas isotônicas, próprias para esportistas – profissionais ou amadores.
2Adidas: a fabricante de material esportivo alemã é uma das mais antigas patrocinadoras da Fifa, história que começou nos anos 1970. Está no seleto time de “patrocinadora global da Fifa” até 2030.
Nos anos 2010, a publicidade alcançou sua forma mais extrema: o anel de LED contínuo, circundando o perímetro do campo e exibindo mensagens em loop.

A propaganda se torna um cordão de luz em volta do gramado.

2010

Publicidade na Copa do Mundo de 2010

1Castrol: empresa britânica de lubrificantes muito famosa pela presença na F1, ela foi patrocinadora das Copas nos Mundiais da África do Sul e do Brasil.
2Budweiser: a cervejaria americana ainda é uma das marcas que mais investe nas Copas. Foi capaz de ganhar exceção para consumo de cerveja em estádios na lei brasileira para a Copa 2014, mas não repetiu o feito no Catar 2022.
2014

Publicidade na Copa do Mundo de 2014

1Garoto: a tradicional marca de chocolates é brasileira e capixaba. O Itaú foi outro grande patrocinador da Copa do Brasil.
2018

Publicidade na Copa do Mundo de 2018

1Gazprom: a maior exportadora de gás do mundo, que é controlada pelo governo de Putin, teve destaque na Copa da Rússia.

As grandes cias aéreas tomam frente nas placas, com KLM, Fly Emirates e Qatar Airways. A publicidade varia, com Johnson & Johnson, a gigante de telecom brasileira Oi, e a substituição do MasterCard pela Visa.

O escândalo do Fifagate deixa marcas e a Fifa perde patrocinadores. Mas a Copa no deserto que consagrou Messi abriu de vez espaço para as gigantes chinesas e o poder do Estado soberano Catar.

No Estádio Lusail, a publicidade circundava o gramado em LED em 360 graus. O que ela mostrava era o portfólio de quem patrocinou a Copa: aviação, energia, bancos, telecom e plataformas digitais.

A economia pós-pandemia havia mudado o que o mundo consumia. E o futebol mudou com a era das bets.

2022

Publicidade na Copa do Mundo de 2022

1Wanda: conglomerado multimídia foi o primeiro parceiro global chinês na história da Fifa. Negócios vão do entretenimento à incorporação imobiliária.
2Crypto.com: outra revolução estampada nas placas de Copa. Saem os bancos tradicionais, entram as corretoras de criptomoedas, um ativo 100% digital e não controlado por governos ou bancos.
2026

Publicidade na Copa do Mundo de 2026

1Betano: parceira recente da Fifa, a bet patrocinou o Mundial de Clubes e teve presença menor em 2022. Agora, é onipresente nos jogos da Copa.

Da madeira pintada ao LED:
cinco gerações de painel

Cinco gerações de placas atravessam o século. Cada uma mudou não só o tamanho da publicidade, mas também quem podia anunciar. Marcas locais dividiam espaço com multinacionais em 1934. Em 2022, só empresas bilionárias sustentam o LED em 360°.

Anos 30Letreiros no topo das arquibancadas, pintados à mão sobre madeira ou tecido.

Anos 50 e 60Placas atrás dos gols e nas laterais. Um padrão começa a surgir.

Anos 70Primeira Copa em cores. Placas em dois e três andares nos estádios maiores.

Anos 80 a 2000Telão eletrônico e padronização global mudam escala e custo.

Anos 2010 e 2020Anel de LED contínuo, com finanças, energia, tecnologia e cripto em loop.

De milhões a bilhões

Em vinte e quatro anos, a receita de patrocínio da Fifa multiplicou-se por mais de cinco vezes. O que era dinheiro de placa virou o maior negócio do futebol.

Fonte: Sport Insider e Fifa

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