Saques e incêndios aprofundam a crise do governo e corroem a autoridade do presidente, enquanto a líder da extrema direita, Marine Le Pen, avança com o discurso de restaurar a ordem na França.
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Presidente Emmanuel Macron pediu calma em um pronunciamento à nação após saques e violência generalizados. — Foto: POOL/AFP via Getty Images
A seis meses das eleições presidenciais, as cenas de destruição na França evocavam uma zona de guerra e eram o retrato da fragilidade do Estado sob o comando de Emmanuel Macron.
Saques a lojas, ataques a prefeituras e prédios públicos se apartaram das manifestações estudantis e rapidamente ganharam contornos políticos, explorados pelas principais forças que disputam a sucessão no Palácio Eliseu.
O apelo de Macron — “Quem destruiu deve pagar; quem saqueou, deve restituir” — pareceu diluir-se na apatia, enquanto a inação do governo alimentava críticas, e a oposição, em uníssono, exigia a renúncia do ministro do Interior, Laurent Nuñez.
“Coexistem dois cenários: uma arena política onde os candidatos debatem e tentam persuadir, e uma arena social que os ignora completamente por diversas razões”, ponderou ele, em entrevista à agência de notícias AFP.
Apontada como favorita nas pesquisas para suceder Macron, a líder da extrema direita, Marine Le Pen, parece beneficiar-se do caos. Ela não precisou se esforçar para tirar proveito da situação, reforçando a narrativa de restaurar a ordem e apresentando-se, ironicamente, como a candidata de “uma França apaziguada”.
A candidata da Reunião Nacional apoiou os revoltosos com o custo de vida, prometendo “libertar os franceses das políticas tóxicas de Macron” e protegê-los da violência da extrema esquerda. Le Pen, contudo, passou ao largo das propostas de austeridade de seu partido, consideradas bem mais radicais do que as do presidente.
Antes que assentasse a poeira dos saques e incêndios de sábado, as acusações entre o governo e a extrema esquerda ampliaram o volume. O líder da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, condenou as pilhagens e a violência, esquivando-se das acusações de responsabilidade pelo caos, apontadas pelo premiê, Sébastien Lecornu.
“Não sei quem ouvirá minha voz nessas circunstâncias, mas minha mensagem é clara: aqueles que compartilham nossa luta não têm lugar nos saques e no vandalismo”, acrescentou.
De acordo com as pesquisas, o candidato da extrema esquerda está empatado com o candidato de centro-esquerda Raphael Glucksmann e o de centro-direita Edouard Philippe na disputa pela vaga do segundo turno nas eleições de maio. Mélenchon acusou Macron “de deixar a situação se deteriorar”, sem oferecer soluções para apaziguar a indignação.
Como observou o diretor do Instituto Francês de Opinião Pública (Ifop), Frédéric Dabi, o país não teve tempo de se recuperar de incêndios, seca, aumento vertiginoso dos combustíveis e das sucessivas crises deflagradas nos últimos meses.
Sem maioria parlamentar, sem empatia, incapaz de implementar suas reformas e com os cofres públicos vazios pela dívida interna galopante, Macron personifica as frustrações dos franceses e está fadado a viver os próximos seis meses como um pato manco.
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Manifestantes entram em confronto com a polícia durante protesto contra o alto custo de vida e em apoio às reivindicações estudantis em Paris, neste sábado (17). — Foto: AP Photo/Emma Da Silva






